domingo, 1 de fevereiro de 2015

MÃOS DE MULHER

Biscoito de Maizena®(amido de milho) da minha mãe...


Cheguei ao Mercado apressada, com o horário já estourado. A missão,  dada pelos filhos,  já fora parcialmente cumprida desde o dia anterior: quibe (ou quebes ) de arroz e saltenhas fritas já repousavam no congelador, embalados em roupa prateada, engalanados para seguir viagem rumo à Terra do Sol.

Dos muitos petiscos preferidos que o tempo não daria oportunidade de levar,  esses e a farinha foram os escolhidos,  junto com o xarope de guaraná já na sacola.  Na mão, para não ter risco de quebrar, irão os biscoitinhos feitos pela avó, a serem comidos de conta-gotas. Fui correndo à banca do Mercado onde sempre compro a melhor farinha de Cruzeiro do Sul.

Apesar da pressa, encontrei um querido amigo, ocupado em adquirir alguns dos nossos melhores produtos para uma cesta a ser entregue a uma autoridade nacional em visita ao nosso Estado. Enquanto esperava,  sugeri a troca da rapadura já escolhida por ele, filha única ali abandonada e em não muito bela condição,  por um açúcar mascavo  claro, fresco e macio dentro do saco plástico que o acomodava.

Sugestão aceita,  começo a conversar com o proprietário,  senhor Adalberto. Sempre que ali vou, sou atendida pela dona Verônica,  a esposa. Pergunto e converso até mais do que compro, mas ela tem a maior paciência em identificar a procedência de cada produto. Na frente da banca, ficam três ou quatro enormes barris plásticos com a farinha de tapioca, as farinhas branca e a amarela colorida com açafrão, além da de coco, estrela maior. 

Jamais compro farinha sem provar. Sempre peço que ela seja pesada dos barris, pois apesar da ótima qualidade das que estão ensacadas, prefiro ao presentear, saber exatamente o sabor que estou ofertando para alguém querido. E aí,  ao provar da farinha de coco,  de tão crocante, comecei a falar pra ele que estava tão boa que eu tinha certeza que ele havia voltado para o antigo fornecedor.

Explico: apenas uma vez, ao comprar a farinha e provar, percebi que apesar de muito boa, não tinha o mesmo sabor e crocância das outras farinhas que eu sempre adquiria ali. Comentei com a dona Verônica,  que concordou e pesarosa, me informou ter tido um problema com o fornecedor de sempre e precisara adquirir de outro. Não levei a farinha nesse dia.

Hoje, ao voltar, comentei esse fato com o seu Adalberto. E ele, ao me contar a história,  disse que havia resgatado a parceria,  pois havia perdido vendas em função da excepcional qualidade desse produtor. Provei e pedi para ele embalar a farinha de coco. Enquanto conversávamos, ele deslocou alguns dos pesados sacos que decoram o local, que é bem pequeno, abriu um deles, olhou pra mim e disse:

" Quando eu vendo aqui uma farinha, fico feliz. Mas quando eu abro um saco com esse produto com tanta qualidade, parece que tudo faz sentido. A senhora não encontra essa farinha aqui em lugar nenhum. Apenas três produtores a fazem com essa qualidade.  O coco, plantado lá mesmo, é descascado à mão e lavado caprichosamente. Depois é bem ralado em pedaços minúsculos que no momento certo, vão para a farinha e quase se dissolvem. É tudo feito com tanto capricho e cuidado que emociona a gente. Essa farinha vem de um ramal lá de Cruzeiro do Sul, na mesma estrada da fábrica de biscoitos".

Fiquei escutando extasiada. Porque para quem ama o que faz e compreende a importância de manter a tradição e o sabor que nos orgulha e identifica, garantir a qualidade desse produto faz toda a diferença.  Não comprei apenas a farinha deliciosa. Comprei cultura, comprei o conhecimento de décadas e principalmente,  levo com a farinha o amor pelo produto bem - feito. 

Agradeci ele ter aberto o saco enorme de farinha para que eu levasse a melhor possível.  Ele me disse: " E a senhora sabe de uma coisa? Essa farinha é feita com uma pazinha desse tamanho, pequena. E sabia que a maior parte dela é feita por mulher?"


A farinha com coco, crocante, aromática e muito, muito saborosa...

Fiquei absorvendo a informação.  Longe de significar preconceito, tudo o que ele quis me dizer foi que além de todas as outras qualidades presentes, ali também estavam  delicadeza, capricho e envolvimento total. Por isso, para homenagear essas trabalhadoras tão especiais, trago a receita dos biscoitinhos feitos até hoje por minha mãe. Aos quase oitenta anos, dona Marisanta segue firme e forte. Farmacêutica, talvez a primeira no Acre, dirige, capina o quintal até hoje e apesar de não gostar de cozinhar, faz os quitutes mais deliciosos. Os biscoitinhos são disputados no tapa e quase escondidos pelo neto mais velho, que os come devagar. Faça você também, é fácil e com um café fresco, são imbatíveis.

Biscoitinhos de Maizena ® da dona Marisanta

Ingredientes

100 g de manteiga com sal
250 de amido de milho (Maizena)
06 colheres de sopa rasas de açúcar (ou um pouco menos, se desejar)
01 ovo inteiro

Modo de fazer

Misture todos os ingredientes em uma vasilha e amasse com a mão, até ficar bem ligado. Numa superfície limpa, retire porções e enrole como cordões, cortando com a faca em pequenos pedaços, a gosto e passando um garfo em cima para fazer as marquinhas e achatar um pouco o biscoito. Coloque em forno quente, em assadeira untada e polvilhada com farinha de trigo, até assar.

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Banca do seu Adalberto e dona Verônica - Mercado Elias Mansour, Rio Branco, Acre,
parte interna

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