sábado, 2 de novembro de 2013

QUANDO O CÉU ENCONTRA A BOCA

Marcos Afonso, frei Betto, eu e Padre Luis Ceppi, com a Rainha da Floresta



Frei Betto

Padre Luis Ceppi, frei Betto e Elenira Mendes, filha de Chico, em Xapuri, Acre

Padre Luis Ceppi, frei Betto, Elenira Mendes e Marcos Afonso, em Xapuri, Acre

Frei Betto e a Rainha da Floresta no Seringal Cachoeira

Frei Betto e padre Luis Ceppi com a Rainha da Floresta

Frei Betto e Marcos Afonso, com a Rainha da Floresta

cipó com vários nós, Seringal Cachoeira

Seringueira recém-cortada para extração do látex, Seringal Cachoeira

Árvore na mata, Seringal Cachoeira

Não é todo dia que temos a sorte de encontrar pelo caminho pessoas especiais. Pessoas cujo histórico de vida já nos fariam ter respeito e orgulho por pertencer à raça humana. Pessoas que há muito deixaram de lado as vaidades cotidianas e se debruçam em um exercício diário de amor ao próximo e de solidariedade. E que com a sua presença e seu trabalho, nos deixam mais confiantes e protegidos. Frei Betto é assim.

E me senti extremamente privilegiada por ter convivido um pouco com suas ideias,  em recente visita ao nosso Estado, onde tivemos acesso à palestras, aos livros e, principalmente, ao pensamento lúcido e contemporâneo desse frei dominicano que há décadas participa no Brasil e no mundo da luta pelos direitos humanos, pelas liberdades democráticas e por um mundo mais justo. Frei Betto veio ao Acre como parte da programação que resgata a luta de um dos maiores líderes do Brasil e hoje, do mundo, o seringueiro Chico Mendes.

Há 25 anos atrás, Chico foi covardemente assassinado. Seus ideais, entretanto, não sucumbiram à sua morte e sua luta serve de exemplo para as gerações de hoje.  No Seringal onde Chico viveu, o Cachoeira, existe hoje uma comunidade sustentável que vive do manejo correto da castanha, da extração do látex e da madeira. Grande parte de seus familiares ainda trabalha e reside lá. Não estão ricos, mas há escola, alimentação, uma pousada ecológica tocada em parceria com a comunidade e o mais importante: os jovens não querem sair do Seringal.

Isso mostra que apesar dessa realidade não ser a mesma para todos os seringais do Acre, é possível conviver com a floresta sem devastá-la, tirando dela o sustento familiar. E principalmente, de cabeça erguida. Frei Betto conheceu Chico Mendes e teve contato com sua luta. Tornou-se um amigo do Acre e esteve entre as personalidades presentes aos funerais de Chico, junto com Lula e Benedita da Silva. 

Poderia passar um bom tempo discorrendo aqui sobre a sua extensa biografia e seus mais de cinquenta livros publicados e os muitos prêmios dos quais foi merecedor.Entre eles, dois prêmios Jabuti, o maior reconhecimento literário a um escritor no Brasil. Frei Betto tem livros publicados aqui e no exterior e fala de sua convivência com ícones como Fidel e Lula de forma muito natural, como se eles estivessem aqui do nosso lado. 

Mas prefiro falar daquilo que não está escrito. Da primeira impressão.  Ao vê-lo, ainda no hotel, lembrei imediatamente que estava diante também de um autor de livros de culinária. Além disso, sua mãe, a  escritora e culinarista Maria Stella Libanio Christo,  foi uma das maiores conhecedoras da comida mineira e é autora de oito livros sobre o tema, entre eles Fogão de Lenha - 300 Anos de Comida Mineira, uma referência na gastronomia das Gerais. Dois de seus livros foram escritos em parceria com o filho,  Fogãozinho - Culinária Infantil em Histórias e Saborosa Viagem pelo Brasil. Maria Stella faleceu em 2011. 

Não o achei muito mineiro no primeiro contato. Acho que exercitei bem o sentido da palavra preconceito e me preparei para alguém de fala mansa, calado e quem sabe, até meio sisudo. Frei Betto  é ágil, de ideias claras e mesmo com uma extensa agenda, não reclamou de nada. Aos 69 anos, com cara de muito menos, deu instruções sobre o que queria e como queria. Perguntado após a maravilhosa palestra para 300 pessoas, no anfiteatro da Ufac, o que o fazia assim tão jovem, respondeu bem-humorado: "meditação!", lição que ele também dá, no seu último livro, Fome de Deus, quando fala "Meditar não é difícil como se imagina....É preciso perder a mania de querer tudo controlar através da mente.É preciso despojar-se dela. Calá-la. Penetrar nos seus bastidores. Virá-la pelo avesso. Fechar os olhos da mente, tão gulosa e soberana. Quanto mais conseguir cegá-la, mais se verá a luz. A mente é capaz de apreender a física da luz. Mas não a própria luz - esta, só a meditação capta."

Ao saber que amo cozinhar e tenho este blog, após o almoço e antes de sua palestra, presenteou-nos (a mim e meu marido) com um de seus livros, que segundo ele, "...nunca deixa de vender...", o Comer como um Frade - Divinas Receitas Para Quem Sabe Por Que Temos Um Céu Na Boca, onde a autêntica comida de alma e de raiz é apresentada junto com pitadas de bom cristianismo. Mal sabia ele que numa autêntica corrida de Fórmula 1, eu havia preparado uma fornada de biscoitos de castanha (veja a receita aqui: http://mesanafloresta.blogspot.com.br/2011/11/biscoitinhos-para-um-filho-distante.html) que, para minha alegria eterna, ele adorou e elogiou.

No Seringal Cachoeira e acompanhado entre outros de Elenira Mendes, Frei Betto foi ao encontro da comunidade e dos familiares de Chico, relembrando a matriarca da família, d. Cecília Mendes, recentemente falecida. Também demonstrou o maior respeito ao adentrar a mata para conhecer uma samaúma de 500 anos, que é chamada de Rainha da Floresta, pelo seu porte e história: 35 metros de altura e 25 metros de diâmetro. Mesmo com a maratona de atividades, pequenas visitas, palestras e a viagem ao Seringal debaixo de chuva, em nenhum momento o vi perder a tranquilidade. Poderia mesmo dizer: um príncipe, apesar do cansaço!

Emocionei-me ao ver Marlene, prima de Chico Mendes, colocar a poronga acesa sobre sua cabeça, num momento de fraternidade e respeito. Também me emocionei quando a pedido dele, todos demos as mãos e independentemente da opção religiosa, foi rezado o "Mãe e Pai Nossos" e ao ouvir os seringueiros presentes entoando uma música em homenagem ao Betto, como perguntei se podia chamá-lo. Homem de Deus, sim, mas com o coração cheio de paz e um amor real pelos semelhantes, essa foi a minha principal impressão. 

Conhecer alguém especial é sentir saudade com tão pouca convivência. Ainda estou processando (para usar uma expressão muito usada pelo meu marido, um dos integrantes da comissão que está organizando todas as atividades relativas aos 25 anos Chico Mendes Vive Mais) esta visita, mas tenho certeza que foi uma das coisas mais prazerosas que me aconteceu este ano.

E nesta tarde chuvosa resolvi experimentar uma das receitas do Betto e a fome e a praticidade me levaram ao Empadão São Clemente. Feito para quatro pessoas, aqui em casa parece que apenas duas vão dar cabo dele, caso o meu jovem filho não acorde a tempo de comê-lo. (Não, não, prometo guardar pelo menos um pedaço). Precisei improvisar no recheio, pois não tinha todos os ingredientes. Pelo mesmo motivo, troquei a colher de sopa de queijo ralado da massa por três pitadas de sal. Sei que o Betto vai me perdoar a licença poética, pois da próxima vez os ingredientes estarão todos a postos. Mesmo assim, ficou delicioso! Foi comido fumegante, assim que saiu do forno! Experimente, é rápido e fácil!










Empadão São Clemente (adaptado, receita constante do livro Comer como Um Frade - Divinas Receitas Para Quem Sabe Por Que Temos Um Céu Na Boca - ed. José Olympio)


Ingredientes

Para o empadão:

01 xícara de chá de leite
01 xícara de chá de farinha de trigo
1/4 xícara de chá de óleo 
03 ovos
01 colher de sopa de fermento químico
01 colher de sopa de queijo ralado (como não tinha em casa, usei três pitadas de sal)
01 gema de ovo para pincelar

Para o recheio:

100 g de presunto picado
100 g de queijo mozarella cortadinha
03 tomates sem semente picados
02 cebolas picadas
(como não tinha tomates maduros, substituí por um pedaço grande de alho poró cortado em rodelinhas e dois tomatinhos verdes, além de 01 cebola picada, refogados todos juntos em 02 colheres de azeite, só para murchar)

Modo de Fazer

Empadão:

Ligue o forno antes de começar, em 220 graus. Passe manteiga e farinha de trigo em uma assadeira de vidro quadrada, não muito funda (ou outra de sua preferência). Como alterei um pouco o recheio, leve ao fogo uma frigideira com as duas colheres de azeite e acrescente o alho poró, o tomate verde e a cebola, deixando murchar um pouco. Reserve. No copo do liquidificador, coloque o leite, a farinha, o óleo, os ovos, o sal ou o queijo ralado e o fermento e bata bem. Despeje metade na assadeira, espalhando bem. Por cima, distribua o recheio de alho poró ou os tomates e cebolas como no original, o queijo e o presunto picados. Por cima, coloque o restante da massa e alise para que cubra todo o recheio. leve ao forno até dourar. Retire do forno um pouco antes de estar pronto, passe a gema diluída em um pouquinho de azeite, se desejar e volte ao forno por mais cinco minutos. Sirva quente ou aguarde esfriar, se conseguir. Nem precisa de acompanhamento e a massa, sem trocadilho, é de comer rezando!
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Para saber mais:

4 comentários:

  1. Frei Beto transmite paz. Passa o tipo de proteção que a gente sabe que sempre vai ter do pai e a segurança que nunca vamos perder da mãe. Talvez por isso, mesmo olhando de longe, quando vejo seu semblante me perco na imensa tranquilidade que ele passa.

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  2. Oi, Melissa,

    muito obrigada pelo seu comentário. Frei Betto é realmente especial, fiquei muito honrada por conhecê-lo. Um grande abraço, passe sempre por aqui!
    Patrycia

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  3. Não sei o que é mais gostoso de ler... o texto ou a receita... parabéns querida Patrycia... me emocionou... bjos..

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  4. Querida Juciele,

    muito obrigada pelas palavras carinhosas, adorei!

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