segunda-feira, 1 de maio de 2017

MOMENTO MÁGICO

Cupuaçu curd com compota de tangerina e tomilho, sabores fortes e deliciosos 


Parecia ser uma manhã como outra qualquer. Mas o exame detalhado da meteorologia antecipava emoções que nós, com o coração aos pulos, ainda não acreditávamos muito. O ano passou rápido e entre todos os preparativos de bagagens, vistos, roteiro mínimo para não perder tempo, lugares bacanas a visitar, eis que estávamos passando uma curta temporada em Nova York, hospedados bem próximos à muvuca típica da Times Square.

Chegamos na cidade em uma manhã friorenta, com muito vento. Malas no hotel e algum stress, como deve ser de praxe, saímos eu, meus dois filhos e marido para um pequeno passeio. Era a minha primeira vez e a dos meninos na cidade que quase nunca dorme e meio que nos sentindo em alguma produção americana, começamos a reconhecer lugares, neons, estilos de vida. Só voltamos ao hotel já muito mais tarde, início de noite, fascinados com aquele movimento. 

O Homem-Aranha, de verdade, só poderia ter nascido aqui. Suas enormes teias pareciam nos acompanhar de perto ao caminharmos por entre aqueles prédios muito altos. Na famosa Times Square, os luminosos eram tão intensos que em alguns momentos tive dúvidas se de fato era noite ao nosso redor. Moramos no Acre, em pleno e úmido calor de quase 40 graus, sem ventos. Meu filho mais novo nos acompanha na quentura de Sobral, Ceará. O único mais confortável era o filho mais velho, que vive no litoral e portanto, tem uma brisa a mais no seu dia a dia.

Parecíamos pacotinhos cheios de roupas por todos os lados, que começavam nas calças e camisas térmicas e pediam ainda algumas blusas e casacos, gorros, luvas e cachecóis. Mas, apenas frio, muito frio, com um vento de arrepiar e um pouco de chuva. Nossas áreas de interesse já estavam traçadas, sem muita preocupação: Museus, Central Park, toda a gastronomia possível, Strawberry Fields (homenagem ao Lennon, próximo ao prédio onde ele morava, na frente do Central Park), cinco minutos de Wall Street, um pouco de Brooklyn...

Outlets e afins, até mesmo os shows da Broadway, ficarão para uma segunda vez. E no Brooklyn, conseguimos chegar quase de noite, para olhar apressadamente Manhattan e suas luzes deslumbrantes pelo outro lado do rio Hudson. Não deu tempo de conhecer sua ponte mais famosa, vista apenas de longe, mas foi possível tomar sorvete de baunilha e morango na Brooklyn Ice Cream Factory, deliciosos mesmo em um frio de rachar.

É claro, tínhamos que ir ao Hard Rock Café. Dois filhos e um marido roqueiro não podiam fazer menos e de forma solidária, me emocionei junto com eles ao ver guitarras e outros objetos dos Beatles e alguns dos ícones mais representativos do rock mundial. Mesmo que não seja a sua praia, não deixe de ir, é um mergulho na história, pois os objetos são originais.

Já havíamos caminhado muito pelas principais Avenidas que fazem a fama da cidade. Estivemos no Columbus Circle, uma das rotatórias mais famosas de Nova York e é claro, visitamos o Whole Foods, apesar de lotado. Fomos ao Eataly (que já tem filial no Brasil, em São Paulo) com seus vinhos, azeites, pães e delícias italianas, tudo maravilhoso.

Visitamos   a loja de instrumentos musicais mais sortida e antiga da cidade, para deleite dos filhos, que usaram suas economias para comprar instrumentos, fomos ao Chelsea Market, um super espaço para gourmet nenhum botar defeito, com suas lojas, confeitarias, padaria, lanchonete e um misto de rotisserie e casa de sanduíches cujos produtos vem de fazendeiros próximos e sustentáveis, Rockfeller Center, Saint Patrick’s Cathedral...

Devo confessar um pecado: não sou fã de nada muito doce (abro uma exceção para doce de leite escuro e uma colher de quindim), mas ao me deparar casualmente com a filial da Magnólia Bakery não pude deixar de entrar, é claro. A loja é muito acolhedora e dá para assistir à finalização dos cupcakes ali mesmo, bem como comprar produtos de confeitaria, se quiser. As cores são lindas, em tons pastel, fiquei encantada. Pedi um Banana's Pudding, muito curiosa, pois já conhecia a fama. Mas, sinto muito, só aguentei a primeira garfada. Dá para sentir a qualidade do produto mas é tão doce que não fui em frente. Meus formigas familiares se revezaram e concluíram o serviço. Ainda fiz uma segunda tentativa com um bolo amanteigado com blueberry's, cuja massa estava ótima, mas de novo a quantidade de açúcar não me deixou seguir em frente. 

Nos encantamos com o Museu de História Natural. Ver aqueles enormes dinossauros nos remontou imediatamente ao filme Uma Noite No Museu  e quase dava para ver o saudoso Robin Williams montado no seu cavalo. Meus filhos ficaram tão impactados que só saíram após o Museu fechar, dispostos a ver tudo que podiam. Nós, os mais experientes, havíamos voltado para o hotel um pouco antes, sonhando em colocar as pernas para cima.   
Todas as manhãs descíamos para tomar café perto do hotel. Os bagels, pãezinhos onipresentes nos cafés de Nova York, eram o prato preferido do mais novo, junto com um enorme copo de café. Sim, porque acho que ninguém em Nova York sabe o que são dois dedos de café. Ainda que fraco, as quantidades são absurdas. Então, entre as inúmeras cafeterias e lanchonetes disponíveis, íamos de Pret a Manger, uma rede inglesa que prima pelos orgânicos, iogurtes, saladas e sucos, bem como sanduíches deliciosos. Um copão de café amargo e um belo croissant, seguidos de um iogurte ou mingau de aveia com mel eram quase sempre minhas opções.

E foi lá, numa manhã que começou muito fria, ao olhar casualmente para a enorme janela de vidro, que reconheci a competência americana para a previsão do tempo: o anúncio era de que exatamente naquele dia, penúltimo de nossa estadia, havia uma grande possibilidade de cair neve. Quase não acreditei ao ver tímidos flocos descendo num frenesi pela rua. Saímos todos apressados e deliciados. Mas era muito pouca neve para comemorar e resolvemos cumprir a agenda: visitar o Metropolitan Museum, dentro do Central Park.

Entramos e começamos a passear por toda aquela imensidão de salas e objetos mais do que especiais, quando deixei-os um pouco e fui para uma sala envidraçada, de frente para o parque. Não acreditei quando vi aqueles flocos de neve cobrindo tudo como um tapete branco e fugaz. Nem tivemos dúvida. Interrompemos um pouco a visita ao Museu e corremos para lá, igual crianças com um brinquedo novo. Não tem como não se emocionar com a neve. Ela é lúdica, é linda e nos deu o melhor presente de final de férias. Passar esses momentos com minha família foi muito, muito especial.

Então, para relembrar momentos felizes, nada como cozinhar. Crie novos momentos com sua família com esse peixe muito simples e saboroso e com uma espécie de curd (um creme que leva gemas de ovo, uma fruta cítrica, açúcar e um pouco de manteiga) feito com cupuaçu e uma compota de tangerina para a sobremesa. Bom apetite!

Obs: é claro que seriam precisos mais alguns posts e várias visitas a Nova York para conseguir conhecer um pouco mais, mas é absolutamente imperdível. E apesar da caixinha (gorjeta) onipresente, em nenhum lugar deixamos de receber trocos de centavos, o nos chamou muito a atenção.


O peixe com a farofa e a banana crua, além dos temperos. Um pouco de azeite e basta fechar com cuidado o pacote, deixando espaço para que ele cozinhe. Delícia!
O pacote fechado deve ficar assim. Vai ao forno numa assadeira e depois pode ser aberto direto no prato de servir, se desejar


Surubim no cartoccio
(para 06 porções)

Ingredientes

Para a farofa crua

01 xícara de farinha de mandioca crua
01 molho de chicória bem picada (na falta use um pouco de salsa, a gosto)
03 a 04 colheres de sopa de cebolinha picada
02 colheres de sopa de pimentinha verde de cheiro, bem picada
02 colheres de sopa de cebola picada
1/2 colher de sopa de alho picado
01 colher de sopa de manteiga
Sal e pimenta do reino, a gosto

Para o peixe

12 pedaços de peixe, cortados como para moqueca, em pedaços mais grossos
01 cebola grande, cortada em rodelas mais grossas
01 banana comprida (ou da terra), crua, sem as sementes, cortada em três partes ao comprido e cada parte cortada em quatro
06 pimentinhas doces (não ardosa, de cheiro) do tipo que você tiver disponível em casa ou no mercado
06 raminhos de coentro
cebolinha picada, a gosto
páprica doce, a gosto
azeite, sal e pimenta do reino moída na hora
Papel alumínio para montar

Modo de fazer

Para a farofa crua

Numa tigela, misture todos os ingredientes, inclusive a manteiga e amasse bem, para que ela se distribua na farinha. Tempere com sal e pimenta e reserve.

Para o peixe

Lave os pedaços de peixe com água e limão e deixe de molho por alguns minutos. Escorra, lave com mais água para tirar o limão (eu prefiro, mas se não quiser, enxugue e reserve).
Com o papel alumínio faça 06 (seis) retângulos grandes e separe os demais ingredientes em tigelinhas, para a montagem. Distribua um dos pedaços de papel numa assadeira, com o lado brilhante para cima. Coloque uma ou duas rodelas de cebola em cima e regue com um pouco de azeite. Acrescente 1/6 da mistura temperada da farinha e por cima, coloque dois pedaços de peixe. Salpique sal (na parte de cima do peixe, a gosto) e pimenta do reino. Coloque dois pedaços da banana comprida crua por cima, uma pitada de páprica doce, um ramos de coentro e cebolinha picada. Ao lado, arrume uma das pimentas, coloque mais um pouquinho de azeite e feche delicadamente, formando um pacote, virando um pedaço do papel por cima do peixe e prendendo as extremidades. Reserve em uma bandeja ou assadeira e deixe na geladeira até a hora de ir para o forno. Esse prato pode ser servido sozinho mas se quiser, pode acompanhar com um pouco de arroz branco.


Cupuaçu curd com compota de tangerina
(para 04 a 05 porções)

Para o cupuaçu curd
obs: não segui uma receita clássica, combinei os ingredientes de acordo com meu paladar, portanto case deseje, pode fazer pequenos ajustes, como acrescentar um pouquinho mais de açúcar, por exemplo.

Ingredientes

02 polpas de cupuaçu de 100 ml cada (se for usar cupuaçu in natura, uma sugestão é bater metade de polpa e metade de água. Pode ser necessário acrescentar um pouco mais de água)
04 gemas de ovo caipira, de preferência, passados em peneira
01 pitada de sal
10 a 12 colheres de sopa rasas de açúcar
1/4 xícara de água
1 colher de café de amido de milho dissolvido em 01 colher de sopa de água (caso deseje um pouquinho mais consistente e só se realmente desejar)
01 colher de chá de manteiga sem sal

Para a compota de tangerina

02 tangerinas maduras e firmes, descascadas e limpas, em bagos (na verdade, o ideal e desejável é utilizar a murkote, sem sementes)
Zestes das cascas das tangerinas (Há um cortador próprio para zestes, tirinhas bem finas da casca, mas se não tiver, corte a casca em tiras, retire bem toda a parte branca e corte o mais fino que puder)
1/2 xícara de água
01 pitada de sal
1/3 xícara de açúcar refinado
03 a 04 ramos de tomilho fresco

Mix de castanhas

03 a 04 castanhas de caju quebradas
02 nozes quebradas
01 castanha do Brasil, quebrada
(você também pode fazer o mix a seu gosto, com outras castanhas)

Modo de fazer

Para o cupuaçu curd

Numa panela de fundo grosso, coloque as polpas de cupuaçu, as gemas de ovo, o sal e o açúcar. Deixe a água e o amido dissolvido a postos, caso queira utilizar. Com um fouet misture bem e leve ao fogo bem baixo, mexendo sempre, até que ferva e engrosse. Prove e se quiser, acrescente até 1/4 da xícara de água. Deixe ferver novamente, sempre misturando e se necessário, coloque o amido dissolvido. Deixe ferver mais um pouco. Ainda quente, acrescente a colher de chá de manteiga e misture bem. Despeje em quatro a cinco tigelinhas de serviço. Acrescente a compota, com cuidado, enfeite com o galho de tomilho e o mix de castanhas. Sirva morno ou frio.

Obs.: Os curds são cremes feitos a base de gemas, açúcar e frutas cítricas, como limão ou laranja. Acompanham bem os scones (tipo de pãezinhos) ingleses mas podem servir também para recheio de tortas ou bolos. Não segui receita padrão e resolvi testar com cupuaçu e gemas. Se desejar menos firme não coloque a água. O amido utilizado é quase nada e também é opcional, se desejar um pouco mais encorpado.

Para a compota de tangerina

Numa panela pequena de fundo grosso, coloque a água, o açúcar, a pitada de sal, as zestes, o tomilho e os bagos de tangerina. Misture levemente e deixe ferver em fogo baixo até que fique cozido e a calda dê uma leve engrossada. Arrume delicadamente em cada tigelinha, por cima do curd e acrescente um pouco da calda e um raminho de tomilho. Disponha um pouco do mix de castanhas e sirva, morno ou frio. 

(Obs: se quiser, pode preparar as tigelinhas e deixar na geladeira até a hora de servir. Se os bagos de tangerina contiverem caroços é melhor retirá-los com cuidado, pois podem amargar levemente após o preparo, mas não atrapalham o sabor do doce).

Meu filho mais novo brincando com a bola de neve, à esquerda. Ao lado, o mais velho e ao fundo, um pedacinho do meu marido, curtindo a neve no Central Park, inesquecível!
No Central Park, mais que felizes. A neve ainda aumentou bastante e valeu cada segundo...
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Para saber mais:

Times Square - https://pt.wikipedia.org/wiki/Times_Square

Central Park - https://pt.wikipedia.org/wiki/Central_Park

Brooklyn Ice Cream Factory - http://www.dicasnewyork.com.br/2015/02/sorveteria-brooklyn-ice-cream-factory-nova-york.html#

Columbus Circle - https://pt.wikipedia.org/wiki/Columbus_Circle

Rockfeller Center - https://pt.wikipedia.org/wiki/Rockefeller_Center

Hard Rock Café - https://pt.wikipedia.org/wiki/Hard_Rock_Cafe

Eataly e Whole foods - http://www.blogvambora.com.br/supermercados-em-nova-york-whole-foods-zabars-eataly-trader-joes/

Saint Patrick's Cathedral - https://saintpatrickscathedral.org/

Magnólia Bakery - www.magnoliabakery.com/https://www.magnoliabakery.com/locations/rockefeller-center/(onde estive)

Pret a Manger - https://www.pret.com/en-us

Strawberry Fields - http://dicasnovayork.com.br/central-park-strawberry-fields/

Fouet - https://www.google.com.br/search?q=fouet&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&sqi=2&ved=0ahUKEwjGuJOh7c7TAhVKFpAKHZu3CQEQsAQIJQ&biw=1280&bih=694

Zestes -  tirinhas finas feitas com as cascas dos cítricos que perfumam caldas, bolos e recheios

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IN MEMORIAN

Esse post vai dedicado aos meus queridos seu Leão e Antonio Namen, meu tio Said, que agora estão passeando pelas estrelas, como diz meu marido. Que nós possamos seguir em frente e guardar as boas lembranças que temos deles.




domingo, 4 de dezembro de 2016

COMIDA PARA ACOLHER

O pirarucu do meu pai, adaptado, bom para acolher...



Quando eu era criança, a maior parte das vezes quem cozinhava em casa era meu pai. Sempre tivemos uma ajudante, pois minha mãe trabalhava fora e longe de casa. E com quatro irrequietas crianças e um quintal cheio de árvores, dá para imaginar a confusão. E sim, não tinha computador nem filminhos viciantes na TV. Aliás, quando eu era muito pequena, nem TV. Era correr para escutar as novelas do rádio, grudada para não perder nada, subir em árvore, andar de bicicleta, jogar futebol com os irmãos, ler muito e brincar, brincar e brincar.

Meu pai tinha trabalhos mais próximos de casa e nunca deixou de meter a colher, ou melhor, todas as colheres, na comida das ajudantes. E cá entre nós, a comida dele sempre foi mais gostosa. O feijão com jabá e banana comprida insuperável, o repolho cortado o mais fino possível para a salada e os bifes caprichosos sempre foram uma alegria. E no dia que tinha pirarucu com leite e batatas, pra mim era dia de festa.

Eu era muito enjoada pra comer. Eram tantas as restrições que eu fazia, que sobravam apenas bife, arroz e salada. A salada e o feijão, ambos do meu pai, comidas em tigelas separadas. Não me lembro de bacalhau quando criança, apesar do meu avô português. Mas o pirarucu que o meu pai fazia, sim, sempre. Ele o preparava numa panela enorme, cheio de batatas e cebola. Não usava leite de coco, acho. Eu não tomava leite de vaca, mas uma vez perguntei e acho que era o leite com o qual ele fazia o pirarucu. E eu adorava.

Esses dias tive a alegria de acompanhar a chef Mara Alcamim, chef e proprietária do restaurante Universal Diner, de Brasília, que veio a convite do Governo do Estado do Acre e Federação das Indústrias, com o apoio de vários parceiros, ministrar oficinas e palestra. Levei-a, é claro, para conhecer as delícias da terra e fomos à Ceasa e depois ao Mercado. Foi um divertimento acompanhá-la, enchendo as sacolas de compras, do feijão à goma, açúcar mascavo, jambu e tudo o mais que encontrou de diferente.

Não resisti e comprei um lindo filé de pirarucu, para mim, até hoje, comida de alma, como diz a escritora Nina Horta. Comida para acolher e cuidar. E após esta semana, em meio a uma crise de Ler/Dort, lembrei-me do pirarucu. E pedi à minha fiel escudeira Ivone que o cortasse e dessalgasse. Com as verdurinhas cortadas e a carne já com o sal na medida, fazê-lo é muito simples. Usei o leite da nossa castanha, hidratada antes e batida na hora, para não fermentar. Os acompanhamentos ficam a seu gosto. Usei cebolas, tomates cereja, couve e batatas. Um arrozinho branco e o conforto de uma comida simples, carregada de referências afetivas. Igual abraço. Faça e convide os amigos e os familiares, fica uma delícia!

Pirarucu ao leite de castanha do Brasil

Ingredientes

Para o pirarucu

Aproximadamente 450 g de pirarucu já dessalgado, cortado em pedaços não muito grandes, escorridos
01 cebola roxa média, cortada em cubinhos bem pequenos
02 dentes grandes de alho, amassados
02 colheres de sopa de azeite
03 cebolas descascadas (usei a roxa, mas podem ser brancas), cortadas em quatro, cada
04 folhas de couve, cortadas em pedaços grandes, com os talos
tomates cereja, a gosto, ou tomates médios, cortados em quatro
03 batatas médias, descascadas e cortadas em pedaços grandes
Cebolinha para enfeitar depois de pronto
Ovos cozidos e azeitonas pretas (a gosto, opcionais). Não usei desta vez.
08 a 10 castanhas do Brasil cruas, deixadas de molho em água, batidas na hora com 1 xícara de água quente

Modo de fazer 

Numa panela de barro ou uma de fundo grosso, coloque o azeite e em seguida o alho, mexendo um pouco. Coloque a cebola roxa picadinha e deixe suar. Arrume as postas do filé de pirarucu já dessalgado (ou do peixe sem peles e espinhas, já dessalgado, caso não use o filé) e por cima arrume as cebolas, a couve, os tomates e batatas. Bata as castanhas com a água quente e se desejar, coe. Vá acrescentando à panela aos poucos, para que o peixe e as verduras/legumes cozinhem no líquido. Se desejar acrescente os ovos cozidos e azeitonas. Prove o sal. Tampe a panela e deixe cozinhar até que estejam macias as verduras e legumes, sem desmanchar. Enfeite com cebolinha picada. Sirva com arroz branco. 




EU PROMETO...

OBSERVAÇÃO: Esse cordeiro foi preparado há alguns meses mas eu não tinha finalizado o texto para postar, por vários problemas. O projeto menos cinco ainda está de pé, pois ainda não perdi nenhum dos quilinhos a mais! Bom apetite!




O prato pronto para servir, acima.




Não sei quanto a vocês, mas tenho um grave problema, recorrente: vivo prometendo, me prometendo e prometendo aos outros que desta vez, sim, faço dieta. E sofro, porque não consigo cumprir esta determinação que não me determina nada. Vejam só, não tenho que perder mais do que meros cinco quilos.

Olhando assim, parece muito, muito pouco. Claro que se eu pegar nas mãos um saco de cinco quilos de qualquer coisa, garanto a mim mesma que desta vez, sim, cumprirei a promessa que faço todo dia a mim mesma, particularmente a cada pedaço de pão integral, doce de leite ou brigadeiro de chocolate meio amargo que vejo pela frente.

Não pensem vocês que eu como muito. Nada disso. Mas a idade, o prenúncio da menopausa, o exercício que eu até consegui fazer mas estou em parada técnica, o hipotireoidismo, a vontade louca de experimentar comidinhas e a absoluta capacidade de me boicotar estão me engordando um bocado. Vivo em briga constante comigo mesma.

Em mim, cada colherada, pelos problemas já relatados, rende por três. Não gosto de doce com muito açúcar (abro uma exceção para um pedaço de quindim), tomo suco de limão e cupuaçu ao natural sem fazer careta, café em noventa por cento das vezes sem adoçar nem um tico mas...não tem jeito.

O universo das gordices é infinitamente maior e mais tentador do que as comidas saudáveis. E até entre elas, há que ter cuidado com os vegetais e legumes que podem piorar uma ou outra situação. O gengibre, por exemplo, tão saboroso e de tantas propriedades terapêuticas, precisa ser usado com parcimônia por quem, como eu, tem hipertensão arterial. Minha sorte é que adoro todo tipo de salada, não gosto de comida gordurosa e não faço questão de muito sal.

Mas vivo cheia de boas intenções ladeada por bocadinhos de rabo comprido e chifrinhos, carregados de queijos e geleias, pães e tortinhas, macarronadas e risotos...meu universo de trabalho gira hoje em função da comida, o que me dá muito prazer. Degustar, experimentar, ler bons livros de gastronomia, participar de eventos, cozinhar, tudo isso me relembra sempre uma frase dita para mim por meu filho mais velho: "Mãe, se você trabalhar com o que gosta, isso não é trabalho, é diversão".

Claro que ainda temos muitos percalços, mas adoro o que faço. E desta vez, decidi dividir com os amigos e leitores deste blog a minha futura dieta. Já estou com o endocrinologista marcado e minha querida amiga nutricionista virá logo em seguida. Até lá, somos eu e vocês. Se eu fizer alguma experimentação nova, serão vocês que irão degustar. Portanto, fiquem atentos. O projeto MENOS CINCO vai começar! E para não perder o costume, posto a receita da ótima paleta de cordeiro produzida aqui no Estado. Marinada de um dia para o outro e assada devagar em forno baixo, ficou deliciosa!

Paleta de cordeiro com arroz sete grãos, tomate recheado com castanhas e frutas secas e farofa de pão caseiro de fermentação natural    

Para a paleta

02 paletas de cordeiro (propositadamente não retirei a gordura e não furei a carne)
Sucos de 01 laranja e 01 limão
Sal e pimenta do reino moída a gosto
01 colher de chá de sementes de coentro, levemente esmagadas
01 pedacinho de anis estrelado, levemente triturado
Hortelã seca e fresca, a gosto
Pitadas de garam masala caseiro (usei o que ganhei de presente de meu amigo David Sento-Sé)
Pitadas de páprica doce
Vinagre de maçã para borrifar as duas peças
700 ml vinho branco (aproximadamente)
02 colheres de sopa de vinho do Porto
Um pouquinho de qualquer calda doce para pincelar (usei calda de laranja, caseira, mas na falta dilua duas colheres de sopa de geleia de laranja com um pouco de água e use) 

Para o arroz sete grãos

Compre o arroz de sua preferência e o prepare de acordo com as instruções do fabricante. Depois de pronto, misture um pouquinho de azeite e passas escuras, a gosto.

Para o tomate recheado

tomates maduros mas ainda firmes (01 para cada convidado)
Figos secos, castanhas do Brasil, passas brancas, sementes de girassol e amêndoas para o recheio, a gosto
sal, açúcar
azeite, manteiga

Para a farofa de pão caseiro de fermentação natural

Sobras de pão caseiro, assados como para torrada e depois moídos grosseiramente no liquidificador (na falta, use pão de boa qualidade)
Manteiga e azeite em partes iguais conforme a quantidade de pão
01 colher de sopa de cebola bem picadinha
passas pretas ou ameixas secas picadas, a gosto
sal a gosto

Modo de fazer

Para a paleta

Retire o excesso de gordura e/ou pele das paletas, se for necessário. Numa assadeira grande, tempere as duas peças com todos os ingredientes da marinada, mas deixe metade do vinho branco para ir regando durante o período do forno, caso seja preciso. Deixe de um dia para o outro, virando de vez em quando. No outro dia, cubra com papel alumínio e leve ao forno quente. Olhe de vez em quando, vire e se precisar, coloque um pouco mais de vinho e um tico de água, para não secar. Quando estiver macio, tire o papel para que a carne possa ir dourando. Nesse momento, se tiver alguma calda doce em casa (de laranja, por exemplo), pincele a carne para que o caramelizado fique mais bonito. Depois de pronto, reserve. Se desejar, retire a paleta, coloque um pouquinho de vinho branco ou água na assadeira e leve ao fogo para aproveitar melhor esses sucos da carne. Retire, peneire e regue as paletas ou reserve para a hora de servir.

Para o tomate

Corte uma tampinha na base de cada tomate, sem furar. Corte a tampa de cada um e reserve. Retire o miolo com muito cuidado, polvilhe cada tomate com uma pitada de sal e uma de açúcar (minúscula) e coloque-os de cabeça para baixo por uns minutos. Em uma frigideira, coloque os frutos secos picados (castanha, amêndoas, sementes de girassol) e deixe torrar um pouco. Misture o tomate picado, os figos e as passas e acrescente uma pitadinha de sal e uma colherinha de manteiga, para que não resseque. Prove a mistura, ajuste o tempero e recheie cada tomate. Prenda a tampa, arrume-os numa assadeira pincelada com azeite e leve ao forno médio para que eles assem um pouco mas ainda mantenham a forma. Reserve. 

Para a farofa de pão

Normalmente, uso sobras de pão caseiro feito com fermentação natural, torrados no forno e depois passados no liquidificador, bem grosseiramente. Não deve ficar uma farinha fina. Numa frigideira, coloque a mesma quantidade de manteiga e azeite (a depender da quantidade de pão, mas em torno de 01 colher de sopa de cada, para mais ou menos uma xícara de farinha de pão. Se ficar seco, acrescente mais um pouco). Acrescente a cebola, deixe murchar e em seguida agregue as passas ou ameixas picadas. Junte a  farinha de pão caseiro. Misture, acrescente sal a gosto e reserve. (Na falta de pão caseiro, use qualquer pão de sua preferência).

Para montar

No prato de servir, coloque o arroz (molde-o, se desejar, em uma pequena tigelinha), um pouco da farofa de pão ao lado e por cima da farofa disponha um tomate recheado. Ao lado, coloque pedaços da paleta desfiadas de forma grosseira e um pouco do molho que se formou na assadeira por cima. Sirva.

Observação: as sobras do cordeiros foram desfiadas no outro dia, misturadas com um pouco do molho do cozimento e um pouco de castanha picada 

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Obs: Usei as paletas de cordeiro do Frigorífico Anna Sara, disponíveis no supermercado e produzidas aqui em nosso Estado. 
Da mesma forma, as castanhas do Brasil são de produção do grupo Miragina, também encontradas em supermercados e mercados locais. Os tomates vieram da minha pequena horta e o pão feito em casa, com fermento também produzido por mim. 


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

PARA ALEGRAR OS AMIGOS

As costelinhas cozidas no suco de cupuaçu reduzido, com farofinha de maracujá e sambal de cupuaçu. Nem cachorro come...


Ando muito atrasada com as postagens aqui no blog. Já fiz e refiz dezenas de textos na minha cabeça. Às vezes estou dirigindo e as frases vão dando o ar da graça, tão amarradinhas umas nas outras que a vontade é de parar o carro, sacar o computador ou até mesmo o celular e iniciar a escrita. Mas aí já estou em cima da hora, o sinal já abriu e aquele quase pronto pensamento dilui-se junto com as inúmeras obrigações do dia.

De outras vezes, é a preguiça pura e simples que me acomete. Porque é preciso escrever, colocar as fotos, a receita bem explicadinha e o conjunto todo tem que estar perfeito e sem falhas. Meu tempo livre, vocês já sabem, é na cozinha. A não ser que eu esteja com uma febre muito alta ou como agora, no meio de uma crise de Ler/Dort que teima em não me largar, mesmo assim, fazer comida é um prazer tão absoluto que me tira do tempo presente e me joga em um universo paralelo. Bem Beco Diagonal. Sim, confesso, li todos os livros do Harry Potter e estou ansiosa pelo próximo, fazer o quê?

Mas, mesmo aos trancos e barrancos, nada é mais gratificante do que encontrar alguém no meio da rua, às vezes um bom amigo, outras vezes uma pessoa que ainda nem conheço e ouvir: "Olha, vi você fazendo aquele prato na TV, vi uma postagem na internet ou mesmo comi um pedaço daquele bolo que você mandou para fulano e achei delicioso!". Comida para mim é isso. Acolhimento, alegria, felicidade, experimentação e principalmente, zero de obrigação. Acho que por isso nunca pensei em me profissionalizar, com medo do prazer virar uma correria cheia de problemas. Há exceções, é claro. Aproveite e faça essas costelinhas, ficam uma delícia. 

Eu as fiz numa panela de ferro que é o meu xodó e na minha opinião, um item indispensável na cozinha. Comprei essa panela quando conheci o indigenista José Meirelles, com quem aprendi a fazer um ótimo filé com cogumelos (veja em http://mesanafloresta.blogspot.com.br/2012/11/o-velho-do-rio.html). Eu a uso para fazer porco e cordeiro, assar pão e tudo o mais que precisar de um calor infernal. Ela é boa. Inclua na sua lista de compras de natal, você não vai se arrepender.

Desculpem o nome pomposo do prato, não tenho muita ideia se está correto, mas como reduzi o suco de cupuaçu antes de acrescentá-lo à receita, deixei assim mesmo. O sambal (molho de pimenta) adaptei de uma receita da querida Neide Rigo, do ótimo blog Come-se (www.come-se.blogspot.com.br, só que usei polpa de cupuaçu e óleo de castanha do Brasil). Faça que é bom!!


COSTELINHA DE PORCO EM REDUÇÃO DE CUPUAÇU, FAROFINHA DE MARACUJÁ E SAMBAL DE CUPUAÇU E PIMENTA DEDO DE MOÇA

Ingredientes

Para a redução de cupuaçu

400 g de polpa de cupuaçu industrializada (de saquinho)
03 xícaras de água
1/2 xícara de açúcar refinado
01 pitada de sal

Para a costelinha

12 a 14 costelinhas de porco já limpas (ou uma peça, que depois de limpa e cortada dê mais ou menos essa quantidade, aproximadamente 1,2 a 1,3Kg)
02 colheres de sopa de azeite
Sal, pimenta do reino, alho, vinagre de maçã a gosto para a marinada
01 folha de louro
01 colher de chá de sementes de coentro inteiras
04 xícaras de suco de cupuaçu reduzido
01 xícara de água e um pouco mais, se precisar
Gomos de laranja para servir (opcional) ou arroz branco (opcional)

Para a farofinha de maracujá

03 colheres de sopa de manteiga
01 colher de sobremesa de azeite
01 colher de sopa de cebola branca picadinha
01 colher de sobremesa de cebola roxa picadinha
1/2 maracujá (polpa e sementes) grande
01 colher de chá de açúcar
01 colher de sopa de suco de laranja
01 xícara de farinha de mandioca de boa qualidade bem fina ou batida no liquidificador
Sal a gosto

Para o sambal de cupuaçu e pimenta dedo de moça

3/4 de xícara de pimenta dedo de moça sem os cabinhos, com as sementes (se não gostar muito de pimenta, reduza para 1/2 xícara)
01 cebola roxa média
1/4 xícara de óleo de castanha do Brasil (na falta pode usar azeite ou uma mistura de azeite e óleo de milho, de preferência)
1/4 xícara de açúcar
04 polpas de cupuaçu industrializadas (400 g)
1/2 colher de chá de sal

Modo de fazer

Para a redução de cupuaçu

Bata a polpa e a água no liquidificador. Despeje numa panelinha, acrescente o açúcar e o sal e deixe reduzir um pouco. Reserve.

Para a costelinha

Numa panela de ferro (de preferência) ou numa de fundo grosso, coloque o azeite. Em seguida, retire as costelinhas da marinada e vá colocando-as aos poucos na panela para que fiquem seladas e possam ir pegando cor. Não coloque todas de uma vez, para que não cozinhem e crie água na panela. Vá retirando à medida que pegarem cor de todos os lados e reserve-as numa travessa. Não jogue a marinada fora, ela será incorporada à panela. Depois que todas as costelinhas já estiverem seladas, junte-as novamente na panela de ferro, coloque a folha de louro e as sementes de coentro inteiras e vá mexendo de vez em quando. Acrescente o líquido da marinada e continue a mexer, fazendo com que os resíduos do fundo da panela sejam incorporados às costelinhas, para que elas fiquem mais escuras e douradas. Quando chegar nesse ponto, acrescente a primeira xícara do suco de cupuaçu e tampe a panela. Vá colocando as demais quando a primeira xícara do suco já colocado for secando e mexa de vez em quando. Coloque a xícara de água, mexa e verifique se a carne já está macia. Ajuste o sal, se necessário e veja se precisa de um pouquinho mais de água. O molho fica encorpado, mas se você preferir, pode deixar um pouco mais de líquido. Reserve.

Para a farofinha de maracujá

Numa frigideira grande de fundo grosso, coloque a manteiga e o azeite e acrescente a cebola branca e a roxa. Deixe fritar um pouco. Acrescente a polpa de maracujá com as sementes, o açúcar, o suco de laranja e mexa. Junte a farinha de mandioca e vá mexendo bem, de maneira a ficar bem crocante. Coloque sal a gosto e retire para uma travessa.

Para o sambal de cupuaçu

No liquidificador, bata as pimentas dedo de moça com sementes, sem os cabinhos, junto com a cebola roxa e um pouquinho de água, só para facilitar a batida. Reserve enquanto leva ao fogo uma frigideira grande com o óleo de castanha (ou o azeite e óleo de milho). Deixe esquentar um pouco e acrescente a pimenta batida, sem peneirar, com cuidado. mexa e deixe fritar até que o oléo se separe um pouco. Nesse momento acrescente a polpa do cupuaçu, o açúcar e o sal. Deixe reduzir um pouco e cozinhar a polpa. Coloque em vidros esterilizados e use na montagem do prato e em outras preparações.

Para montar o prato

Em um prato, coloque um pouco do sambal e puxe com a colher. Coloque um pouco da farofa, enfeite com uma pimenta dedo de moça cortada pela metade. Perto da farofa, coloque duas costelinhas e um pouco do molho. Se desejar, enfeite com dois gomos de laranja,  para dar mais cor. Sirva. Mas você pode servir também com um pouco de arroz branco junto com a farofinha. Aproveite, é uma delícia!

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Para saber mais:

Neide Rigo - www.come-se.blogspot.com.br
http://come-se.blogspot.com.br/search?updated-max=2016-10-04T13:11:00-03:00&max-results=50&start=11&by-date=false


domingo, 16 de outubro de 2016

COMO ANTIGAMENTE

O bolo, recheado de brigadeiro de tamarindo e coberto com doce de leite de latinha, hummmmm....




Dez horas da noite e o luminoso do celular deu uma bela piscada. Olhei e a mensagem da sobrinha era clara: "Tia, a vovó ainda está acordada?". Meus pais estavam nessa noite hospedados lá em casa, para escapar do cheiro forte da tinta fresca que havia colorido cedo as paredes do quarto deles. Respondi de imediato, já preocupada. Pedi que ligasse.

Um segundo depois, o telefonema não deixava dúvidas sobre a natureza e a urgência do problema, um bolo que a sobrinha estava a fazer para a outra avó e ao dobrar a receita, não tinha muita certeza do que fazer com a medida do fermento. Ao ver minha mãe responder alegremente com todas as dicas, toda importante, lembrei-me de uma ocasião bem parecida onde eu, sentada ao lado de minha avó materna, já velhinha mas ainda bem lúcida, tomei coragem e pedi: "Vovó, pode me dar sua receita de bolo?". 

Meu filho mais velho era recém-nascido e portanto, eu já tinha uma responsabilidade futura muito clara: casa sem bolo não se põe de pé e feito ou comprado, desconheço quem em algum momento da vida não se jogou sobre uma bela fatia de bolo feito colo de mãe. Parece que estou vendo a minha velhinha explicando a medida, sentada na cama comigo do lado, anotando tudo.

Ainda hoje e até hoje, é a receita básica que uso, já se vão lá quase trinta anos. Misturo suco, coloco grãos, troco a farinha mas a proporção, o esteio é o mesmo. As receitinhas antigas, às vezes escritas em caprichosas letras e passadas de mãe para filha ou filhos, de avós para netos, de tios para sobrinhos, reproduzem e mantém um vínculo de carinho e afeição que é que nos torna quem somos. É a nossa certidão afetiva, que nos conecta com o prazeroso mundo das lembranças familiares.

Nem sempre elas serão todas boas, é verdade. Muitas vezes o bolo pode ter desandado, o pão deixou de crescer, o açúcar foi colocado a mais ou no meu caso, uma panela cheia do meu suco preferido (cajás fresquinhas amassadas na mão que deram um trabalho enorme pra juntar) levou colheres cheias de... sal! Imaginem aí o desgosto.

Hoje é dia das crianças. Meus filhos estão bem ali pertinho, a uns seis mil quilômetros de distância. Mas como sempre, estão dentro do meu coração. E embora não tenhamos muito a comemorar para o futuro dos nossos netos, com todas essas medidas estapafúrdias e verdadeiramente imorais aprovadas recentemente por parlamentares desprovidos de ética e respeito, não perdi a esperança. Quero que meus filhos e netos, sobrinhos e afilhados possam viver em um país melhor e mais justo. Luto para isso.

Então aproveite o dia e faça esse bolinho. A massa, mexi ligeiramente, mas ainda é a receitinha da minha avó. Experimente, ouse, se reinvente. Hoje, vale botar o pé no chão e sair correndo pra brincar com a meninada. Peça ajuda, eles adoram botar a mão na massa. Depois me conte o resultado!! Bom apetite!!

(Post escrito no Dia da Criança e dedicado a todas as crianças do mundo. Incluindo meus filhos, que no meu coração vão estar sempre pequeninos)

Bolo de laranja com recheio de brigadeiro de tamarindo e cobertura de doce de leite

Ingredientes

Para o bolo

200 g de manteiga sem sal
02 xícaras de chá de açúcar refinado
03 ovos inteiros em temperatura ambiente
01 pitada de sal
01 xícara de leite
1/2 xícara de suco de laranja natural
03 xícaras de chá de farinha de trigo peneirada
Raspas de 01 laranja baía (na falta, use de outro tipo)
01 colher de sopa de sementes de linhaça
01 colher de sopa de quinoa em flocos
01 colher de sopa de fermento para bolo 

Para o brigadeiro de tamarindo

01 lata de leite condensado
01 colher de sopa de manteiga sem sal
01 pitada de sal
01 pacote de tamarindo fresco (mais ou menos 12 a 15 frutos in natura, não tão grandes)
3/4 xícara de água 
Nozes e castanhas a gosto, para enfeitar (opcional)

Para a cobertura

01 lata de leite condensado cozida em panela de pressão até ficar bem cremoso (mais ou menos 40 m a 45 m. Espere esfriar bem para abrir).

Modo de fazer

Para o bolo

Preaqueça o forno em 180 graus. Unte duas assadeiras redondas médias ou outras a seu gosto. Enfarinhe e reserve. Bata muito bem a manteiga com o açúcar e a pitada de sal. Coloque os ovos inteiros um a um e bata bem. Acrescente aos poucos a farinha peneirada, o leite e o suco de laranja, alternando-os e apenas misturando bem. Acrescente a linhaça, as raspas de laranja e a quinoa e por último o fermento, misturando-os com a massa. Distribua-a nas duas assadeiras e leve para assar. Reserve.

Para o brigadeiro

Descasque o tamarindo e bata-o com as sementes e a água no liquidificador. Peneire apertando bem. Numa panela de fundo grosso misture o leite condensado, a manteiga, a pitada de sal e aproximadamente 1/2 xícara do suco reservado ou um pouquinho mais, se necessário (é preciso sentir o sabor. Não deve ficar azedo demais nem tão suave que não seja possível perceber o gosto da fruta). Leve ao fogo baixo e mexa até começar a desgrudar do fundo da panela, mas não deixe ficar muito firme. Espere esfriar e recheie o bolo. 

Para a cobertura

Abra a lata de leite condensado já cozida, coloque em uma tigela e bata com um garfo, até ficar bem cremoso. Aplique. 

Tamarindo, imagem salva do link http://www.remedio-caseiro.com/tamarindo-beneficios-e-propriedades/

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Para saber mais:

http://www.mundoboaforma.com.br/15-beneficios-do-tamarindo-para-que-serve-e-propriedades/

http://www.remedio-caseiro.com/tamarindo-beneficios-e-propriedades/

terça-feira, 11 de outubro de 2016

PELOS QUINTAIS



A abóbora pronta para servir...


E antes de ir novamente ao forno, só para derreter o parmesão...



Quando éramos muito pequenos, lá em casa, nosso quintal só não era maior que o Mundo. Nele cabiam inúmeras árvores frutíferas, cada uma em sua época. Cabia o jogo de futebol com os amigos e o nosso campinho doméstico tinha um cajueiro plantado bem no meio, mas não atrapalhava, era o que dava charme e confundia os adversários. Como boa menina, filha única entre quatro irmãos, eu liderava um time e era tão briguenta quanto eles, sempre que preciso. 

Tinha a goiabeira que me cabia perfeitamente, para ler e para dividir os dramas da adolescência. Tinha os pés de graviola, que produziam tanto o ano todo, que não dávamos a menor bola para as frutas. Manga não se comprava em supermercado nem em feira. Pelo contrário, depois que nos fartávamos, era um favor dos vizinhos e amigos quando aceitavam sacolas e mais sacolas, ninguém dava vencimento naquela montanha de polpa amarela sumarenta, que escorria pela cidade toda.

Ainda hoje, muito da safra de manga se perde nas ruas, deixando um mar de frutas apodrecendo pelo chão. Nossa cultura ainda não a utiliza totalmente para sucos, doces ou mesmo um chutney, tão saboroso. Naquele quintal, nunca houve medo, a não ser de levar uns gritos por ter pulado a cerca dos vizinhos pra roubar fruta. Até hoje, nunca entendi porque o fruto proibido é sempre melhor do que o que está à mão, mas que é mais doce e mais bonito, lá isso não resta a menor dúvida.

Marilana, uma fruta que não se acha mais pela cidade, já era difícil naquele tempo. Alaranjada, meio macilenta e docinha, não sei porque desapareceu dos quintais. Quando tínhamos gripe ou febre, o chá de folha de laranjeira era sem igual, conforto imediato, colo de mãe. Que, a bem da verdade e apesar de farmacêutica formada, nunca dispensou um banho de cozimento bem fervido para nós, muito menos a reza da dona Santa nos casos de espinhela caída, doença de que padeciam dez entre onze crianças. 

Havia cristas de galo no nosso quintal, flores vermelhas firmes e orgulhosas. Ainda hoje, quando as encontro, sinto-me em casa e imediatamente acolhida. Para dor na barriga, chá de cascas de laranjeira. Mastruz batido com leite condensado era infalível para secreções do peito e gripe forte, mas eu o tomava de nariz tampado para não sentir seu cheiro, capaz de me embrulhar o estômago . O leite caramelado tomado quando se tinha dor na garganta levava também, se não me engano, cascas de jatobá que mamãe fervia antes.

Os quintais não serviam só para entreter nossa fome de brincar e encher a barriga. Eram lugares mágicos, onde treinávamos as táticas e as estratégias para a vida adulta. Lugares de sonho onde dava para conversar com as árvores e até onde sei, os segredos ali ouvidos jamais foram passados adiante. Nos momentos de raiva, era o quintal quem nos acolhia. Na alegria, suas árvores eram sacudidas pelos nossos pulos, subindo o mais alto que conseguíamos. Quem nunca ouviu um "Menino, desce já daí!!" não vai saber o que é ser criança. Ai eu ia buscar pimenta malagueta para o meu pai e queimava as mãos e às vezes os olhos. Muito cedo aprendi a macerar as folhas para aliviar o ardor, tiro e queda.

Com o tempo, os quintais da cidade tem devagarinho perdido espaço para os quintais eletrônicos, mais limpos e controláveis.Nos nossos, de verdade, arranhões e suor, roupa cheia de terra e aqui e ali alguma briga faziam parte da rotina. Manja, macaca (amarelinha), cantigas de roda, pera, uva e maçã, bandeirinha, futebol, eram os Mário de antigamente e hoje, nem mesmo sei os milhares de nomes para tanto jogo virtual. Sem contar os inúmeros zumbis às voltas com os recados e curtições inadiáveis do facebook e whatsapp , que não olham mais por onde andam, nem com quem estão nas mesas e lugares.

Não, não sou totalmente isenta...também faço minhas concessões e fotografo pratos antes de começar a comer e respondo mensagens e faço curtições. É difícil resistir à enorme onda que vai nos empurrando, ainda não descobri como mudar de planeta. Mas posso pelo menos conter o fluxo. Conversar, olhando no olho. Rir de verdade, sem kkkk. Ficar à toa.
Diminuir na mente a velocidade do acúmulo de informações. Voltar para o meu quintal de criança antes de crescer e ver que ele nem era tão grande. Mas era o meu porto seguro contra qualquer tristeza. E continua sendo.

Por isso, lanço aqui um desafio: se tiver quintal, plante árvores, nem que seja só uma...se não quiser uma fruteira, flores ficam lindas. E chás de todos os tipos, erva-cidreira, malva, hortelã, capim-santo...e me convide que vou dividir uma xícara, com muito gosto!!

A receita de hoje, fiz num improviso. É mais comum com camarões e até carne-seca. Decidi fazer com charque e achei deliciosa, então a divido aqui. A abóbora e  o charque foram produzidos aqui mesmo, na região. Mais garantia de sabor! Aproveite e chame os amigos. Se desejar, sirva com arroz, mas nem precisa. Basta meter a colher na abóbora assada e pronto, já tem o acompanhamento ideal. Bom apetite!!

Abóbora assada com charque cremoso

Ingredientes

01 abóbora inteira, de tamanho mediano ou a gosto
230 g de charque (dianteiro), aproximadamente, cortado em cubos não muito grandes
01 colher de sopa de azeite
01 colher de sopa de manteiga
01 cebola média, cortada em cubinhos
01 pimenta dedo de moça sem sementes, em cubinhos
04 dentes de alho amassados
1/2 xícara da água de cozimento do charque
02 colheres de sopa de queijo Camembert em pedaços (na falta, use outro de sua preferência, que derreta bem)
02 colheres de sopa de queijo Brie com a casca (na falta, use outro de sua preferência, que derreta bem)
02 colheres de sopa de queijo Minas em cubinhos
01 colher de sopa de parmesão em lascas (evite o queijo ralado de saquinho)
200 ml de creme de leite (industrializado. Se tiver o fresco, ajuste a quantidade, para que não fique tão fino)
Cebolinha verde cortada finamente, flores de jambu e pitadas de páprica doce, para enfeitar (opcionais)

Modo de fazer

Lave os cubos de charque em bastante água. Escalde os cubos em água fervente por umas quatro ou cinco vezes, deixando uns minutos de molho a cada vez e escorrendo a água. Prove sempre após as últimas lavagens, pois o ponto de sal pode variar. Se necessário, escalde mais um pouco, com cuidado para não retirar o sabor da carne. Coloque numa panela de pressão e cubra com água limpa, deixando cozinhar por uns 10 a 15 minutos, até ficar macia. Reserve meia xícara da água do cozimento.  Envolva a abóbora em folhas de alumínio, vede bem e a coloque numa assadeira, em forno médio, por aproximadamente 30 a 40 minutos, ou até ficar assada. Retire o papel da parte de cima, corte uma tampa e com bastante cuidado, retire todas as sementes e filamentos internos. As sementes, se quiser, lave bem e toste-as com uma pitada de sal. Ficam ótimas em um tira-gosto. Raspe um pouco da polpa interna já assada, com cuidado para não desfazer a abóbora nem furá-la. Reserve. Numa panela de fundo grosso, coloque o azeite, a manteiga, o alho e deixe uns minutos, sem deixar queimar. Acrescente a cebola e a pimenta e misture. Coloque a carne, mexa bem e deixe absorver os temperos e fritar um pouco. Acrescente a água do cozimento, os queijos Camembert, Brie e Minas (ou outros de sua preferência) e a abóbora reservada. Mexa e coloque o creme de leite. Prove e ajuste o sal, se necessário. Assim que os queijos derreterem e a mistura encorpar um pouco, desligue o fogo. Encha a cavidade da abóbora com a mistura. Se sobrar, sirva à parte ou use em outra preparação. Coloque por cima o queijo parmesão em lascas e leve ao forno, sem tampar, apenas para gratinar. Retire do forno, enfeite com a cebolinha e as flores de jambu (se usar), pitadas de páprica doce e sirva. Bom apetite!