domingo, 24 de maio de 2015

PURA EMOÇÃO

Bicho de pé com os granulados coloridos da Callebaut...



Fui criada em família grande, de muitos primos, praticamente irmãos. Nossas mães são até hoje muito unidas e nos ensinaram a estar sempre juntos, seja na doença, seja na festa. Às vezes passamos tempos sem nos ver uns aos outros, alguns moram em outros estados, mas em momentos de necessidade estamos sempre, sempre grudados. E hoje em dia, já com nossos filhos, enteados, netos, cunhados, maridos e mulheres, a família cresceu tanto que fica difícil reuni-los numa única comemoração.

Falo aqui da família de minha mãe, sem contar os inúmeros primos e tios por parte de pai e a imensidão da família de meu marido, esta sim, tão grande que eles nem se tratam pelo nome, pela dificuldade de lembrá-los todos: é primo pra cá e primo pra lá e assim vai. Minha mãe é a segunda em seis filhas. Uma delas partiu ainda bebezinha e outra veio para a família já grandinha. Mamãe formou-se em Farmácia na cidade de Fortaleza e foi uma das primeiras, se não a primeira farmacêutica aqui do Estado a exercer essa profissão, razão pela qual foi homenageada em Brasília há uns dois ou três anos atrás, juntamente com outros colegas pioneiros Brasil afora.

É uma senhora simpática e mais ativa do que a idade poderia supor. Dirige para todo lado e tem dificuldade para ficar sentada em um canto, simplesmente descansando. Digo para ela que eu mesma não tenho energia suficiente para acompanhá-la e muitas vezes penso que esse material do qual antigamente as pessoas eram moldadas deixou de ser fabricado. Uma pena, pois bem que eu queria ter essa força o tempo inteiro.


Minha tia Myosote e minha mãe (de azul). Ainda faltam as tias Branquinha, Néca e Vera, que residem fora do Estado

Concentrada, apagando a velinha...

Irmãos e alguns dos muitos e queridos primos...

Eu e mamãe, no selfie...


A danadinha trabalhava dois períodos, exercia a profissão junto à algumas drogarias, engoma muito bem até hoje (coisa que eu nunca aprendi) e sempre deu conta de nos levar ao clube, ao médico e ao dentista e estar conosco em todos os momentos necessários de nossas vidas. Meu pai, apesar de ajudar, nunca foi muito fã de nos levar ao cinema ou à piscina, como ela sempre fez. Dentro do seu fusquinha amarelo, até hoje me pergunto como ela conseguia colocar nove filhos e sobrinhos de idades variadas, alguns já grandes inclusive. Diz uma prima que ela o fazia em camadas, mais velhos por baixo, menores em cima.

Quando resolvi ir embora para outro Estado, ela me deu a maior força, embora morresse de saudade e chorasse sempre. Aprendi com ela a dar asas a meus filhos quando quiseram voar por conta própria. Meus pais são para mim exemplo de força, amor e superação e mesmo quando meu pai teve um problema de saúde que limitou sua capacidade física, não se deixaram abater. Mamãe e ele vão ao shopping, à casa dos filhos e só não dão vôos maiores porque estamos de olho, ali pertinho.

Por isso, quando resolvemos comemorar o aniversário dela de nada mais, nada menos que oitenta primaveras, era preciso caprichar, se não na sofisticação da festa, que foi simples, no carinho e nos detalhes para que ela pudesse aproveitar seu dia de princesa. Não sem briga. Ela não queria de jeito nenhum, pois "ficaria contrariada de nos ver gastando dinheiro para isso". Foi preciso negociação e paciência para que ela enfim aceitasse um café da manhã aqui em casa.

Fechamos o cerco e dissemos a ela que faríamos a festa com ou sem a sua presença. Foi a deixa para ela começar a curtir, fazer alguns convites e enfeitar-se. Compramos roupa nova, foi para o salão e até mesmo combinou a cor das unhas com o vestido, sugestão aceita de uma das cunhadas. No dia do café, chuva desde cedo. Ela me ligou muito aperreada:" Minha filha, será que não vai molhar tudo?".Havia até mesmo esquecido da garagem aqui de casa, onde seria a festa, obviamente coberta. Foi uma emoção só.

Não resisti ao choro quando vi entrar em nossa casa vizinhos que me viram quase bebê e que fizeram parte do meu dia a dia, por anos a fio. Senti-me privilegiada por ver tantos primos queridos, sobrinhos e amigos, dividindo conosco esse momento tão especial para meus irmãos e meu pai. Foi um tal de tentar falar e cair no choro, foi minha tia lembrando alvoradas passadas, tudo o que uma boa festa de família sempre tem. Sem nenhuma confusão.

Então, querida mãezinha, que venham outros oitenta e que você continue conosco por muitas e muitas primaveras, nos ensinando e apoiando sempre. Para você, todo o nosso amor. Nossos agradecimentos especiais ao Chalé do Trigo, que providenciou as guloseimas e à Jeane, responsável pelo bolo. Por não resistir, ainda fiz bolo de cenoura e banana, além de ter entrado na madrugada junto com minha cunhada e sobrinhos para enrolar doces que ela, mesmo sem poder comer, adora. Deixo aqui algumas dessa receitinhas, bom proveito!


O lindo bolo, que ela amou!

A mandala de docinhos: beijinhos, brigadeiros com cookies, bichos de pé e casadinhos...

Bichos de pé de framboesa e os beijinhos...


As mãos de muitas histórias, ajudando a enrolar doces... 


Bolo de cenoura
(essa receita é mais simples do que a outra que faço, adaptada do livro Celeiro, de Rosa Lacombe. Veja em http://mesanafloresta.blogspot.com.br/2012/04/gracias-aos-amigos.html)

Ingredientes

01 xícara de chá de óleo de milho ou similar
03 ovos inteiros
03 cenouras médias, descascadas e cortadas em rodelas
02 xícaras de chá de açúcar
02 xícaras de chá de farinha de trigo
1/2 xícara de chá de passas brancas
1/4 de xícara de nozes ou castanhas picadas
02 colheres de sopa de fermento para bolo
01 pitada de sal
01 barra de chocolate meio amargo para a cobertura ou ao leite, se preferir 

Modo de fazer

Unte e enfarinhe uma assadeira média ou uma forma de buraco no meio. Preaqueça o forno em 180 graus. Separe os ingredientes e no liquidificador, despeje o óleo e os ovos. Comece a bater e vá acrescentando os pedaços de cenoura aos poucos, até virar um creme, bem batido. Despeje esse creme em uma tigela e coloque o açúcar, misturando bem. Acrescente a farinha e as passas e castanhas, se usar. Misture apenas até homogeneizar. Coloque o fermento e o sal e apenas misture rapidamente. Despeje essa massa na forma preparada e leve ao forno até assar. Retire após assado, aguarde alguns minutos e desenforme ainda quente, com cuidado para não quebrar. Espalhe por cima o chocolate picado, em toda a superfície do bolo. O calor vai fazer com que ele derreta. Passe uma espátula ou faca, espalhando o chocolate por todo o bolo. Aguarde esfriar completamente para servir.

Beijinho

Ingredientes

01 lata de leite condensado
02 gemas passadas na peneira
02 colheres de sopa de manteiga sem sal
100 g de coco seco ralado sem açúcar (pode ser usado o coco fresco)
01 pitada minúscula de sal
Cravos da Índia quanto baste

Modo de fazer

Misture todos os ingredientes em uma panela de fundo grosso. Passe manteiga sem sal em um prato ou forma. Leve ao fogo bem baixo até que solte do fundo da panela, mexendo sem parar, de forma contínua, de preferência com uma espátula de silicone ou um fouet. Aguarde esfriar e enrole os docinhos no tamanho de sua preferência, passando-os em açúcar refinado. Coloque-os nas forminhas e espete um cravo da Índia em cada um. Guarde-os em embalagem tampada até a hora de montar a mesa, para que não ressequem.

Bicho de Pé

Ingredientes

01 lata de leite condensado
01 colher de sopa de manteiga sem sal
01 embalagem pequena de pó para gelatina sabor morango ou framboesa
Açúcar de confeiteiro (não impalpável) ou confeitos coloridos para enfeitar 
01 pitada minúscula de sal

Modo de fazer

Misture todos os ingredientes em uma panela de fundo grosso. Passe manteiga sem sal em um prato ou forma. Leve ao fogo bem baixo até que solte do fundo da panela, mexendo sem parar, de forma contínua, de preferência com uma espátula de silicone ou um fouet. Aguarde esfriar e enrole os docinhos no tamanho de sua preferência, passando-os em confeitos coloridos ou açúcar de confeiteiro. Coloque-os nas forminhas e guarde-os em embalagem tampada até a hora de montar a mesa, para que não ressequem.

Boa festa!


terça-feira, 5 de maio de 2015

BOLO PARA O CAFÉ DA TARDE




Perfeito para o café da tarde, com uma colherada de ganache de chocolate...


Se vocês, como eu, vivem numa eterna briga com o tempo, vão entender o que estou falando. Manuais de auto-ajuda (que eu não leio) e planejamentos à parte, a verdade é que para fazer um bolinho eu invento qualquer desculpa. Dou um drible na Ler/Dort e como estou de dieta, me dou ao luxo de comer uma fatia só, abrindo mão de um ou dois lanchinhos, para compensar.

Mas acreditem, não sou de ficar comendo doce direto, longe disso. O que eu gosto mesmo é de colocar um pedaço de bolo no prato, uma bela xícara de café fumegante do lado e me sentir uma verdadeira princesa dos tempos modernos. Ainda que para isso, o horário de almoço tenha literalmente ido para o brejo. Estou tentando me adaptar e transformar essa ansiedade em fazer comida em momentos comemorativos com a família e os amigos. E ainda que essa eterna experimentação em busca do prato perfeito consuma alguns reais a mais, penso que não estou sozinha na empreitada. Claro, nada de excessos.

Por isso, ao fazer o meu bolinho com receita de avó assim que terminei de almoçar, me deparei com algo raro aqui por casa: "Cadê a farinha de trigo que deveria estar aqui?", perguntei a mim mesma e me ouvi respondendo na hora: "O gato não comeu, mas os pães de jerimum sim". Explico. No domingo fiz pães para receber ontem de noite meus pais e irmãos e esqueci que tinha que comprar mais farinha.

Forno ligado, açúcar e manteiga a postos, ovos quebrados aguardando a vez, fui para o improviso. Juntei a farinha branca restante, quinua e farinha integral, nozes e raspas de limão siciliano, um pouquinho do suco e voilá! Bolo delicioso perfumando a casa!

Para não esquecer e de quebra, não me sentir tão culpada, aí vai a receita. Acompanhe com ótimos amigos e um belo chá, café ou chocolate. Sem açúcar, por favor, o mundo já é doce por demais! Bom apetite!

Bolo da vó, improvisado

Ingredientes

Para o bolo

200 g de manteiga sem sal em temperatura ambiente
02 xícaras de chá de açúcar refinado
03 ovos em temperatura ambiente
1 1/2 xícara de chá de leite morno ou em temperatura ambiente
1 3/4 xícara de chá de farinha de trigo branca, peneirada
01 xícara de chá de farinha de trigo integral, fina
1/4 xícara de chá de quinua, em flocos
01 pitada de sal
Nozes picadas a gosto, ou outra de sua preferência, passadas em um pouquinho de farinha
Raspas da casca de um limão siciliano ou Tahity
01 colher de sopa de suco de limão siciliano ou Tahity
01 colher de sopa de fermento químico

Para a cobertura

Suco de um limão siciliano ou Tahity menos a colher de sopa para o bolo (no caso do limão Tahity, pode ser necessário mais uma metade, pois ele é menor)
Açúcar de confeiteiro o quanto baste, para uma calda grossa que servirá para cobrir a parte de cima do bolo
Ganache de chocolate ou similar para cobrir as laterais do bolo ou, se desejar, aumente a cobertura de limão
Splits de chocolate belga para as laterais (opcional. Não temos esses bonitinhos da marca Callebaut aqui, então vale raspas de um bom chocolate)
Sobra da compota de chuchu para enfeitar o centro ou qualquer fruta ou castanha de sua preferência (opcional)

Modo de fazer

Para o bolo

Unte e enfarinhe uma assadeira média. Acenda o forno em temperatura moderada (180 graus). Separe rapidamente todos os ingredientes. Numa tigela grande, coloque a manteiga e o açúcar e bata até virar um creme. Acrescente os ovos, um de cada vez e bata até misturar bem, antes de passar para o próximo. Alterne o leite e as farinhas, além da quinua, mas bata apenas para misturar, rapidamente. Coloque a pitada de sal, o suco e as raspas de limão, as nozes passadas na farinha e misture rapidamente. Agregue o fermento, misture apenas para homogeneizar e coloque na forma preparada. Dê uma rápida batidinha e coloque no forno, na grade mais baixa ou na média. Não abra o forno pelos próximos vinte ou trinta minutos. Após esse tempo, se necessário, vire a assadeira no forno. Deve levar cinquenta minutos a uma hora, mas é preciso estar atento ao seu forno, para que não queime. Enfie um palito no centro e se estiver seco, retire do forno. Passe uma faca em volta, aguarde esfriar um pouco e desenforme. Coloque a cobertura de limão no bolo ainda quente. Espere esfriar e conclua com a cobertura de chocolate, caso utilize. Enfeite com os splits de chocolate ou a gosto.

Para a cobertura de limão

Numa tigela, coloque o suco do limão (menos a colher de sopa que foi no bolo) e vá acrescentando o açúcar de confeiteiro até que vire uma calda grossa. Assim que desenformar o bolo, ainda quente, espalhe por cima. Vai formar uma cobertura quebradiça bem delicada.

domingo, 3 de maio de 2015

TIRANDO LEITE DE PEDRA

A costela pronta para servir, junto com a farofa...


Quem gosta de comida consegue achá-la nos lugares mais improváveis. Bati na trave para fazer a declaração do Imposto de Renda. Todo ano, juro amor eterno à Receita e prometo solenemente entregá-la no primeiro dia em que o sistema se disponibiliza para recebê-la. E todo ano, falho miseravelmente no meu intento.

É um tal de correr atrás de recibos médicos espalhados em dez pastas diferentes, ir ao banco para tirar extratos, consultar conta e informações diversas que estressaria o mais santo dos padres. Isso para constatar mais uma vez que não acumulei os milhões que gostaria. Bem longe disso. A lista das dívidas e obrigações é quase sempre de um tamanho muito maior que o desejado.

Por todos esse detalhes é sempre torturante o momento de fechar a bendita declaração. E é claro que como toda boa brasileira ou brasileiro, deixo para a última hora a agonia final. E ao ir no contador para finalizar a dita cuja (sim, porque desta vez dei-me ao luxo de fazer umas consultas básicas ao contador do meu marido), encontro antes de mim mais alguns bons patrícios, todos atrasados para prestar suas informações.

E tome sala de espera, é claro. E nessas horas arrastadas com o estômago roncando e sem entender a demora em alimentá-lo, sinto um cheiro convidativo de comida bem temperada, que começou a invadir minhas narinas, a essa altura combalidas pelo tempo de aguardo e pela dieta forçada. Não tive dúvidas e fui atrás do cheiro.

Encontrei dona Raimunda na cozinha da empresa. Risonha, ao ser elogiada, me disse timidamente  que se eu soubesse o que era..."É só feijão, minha filha, temperado com um pouquinho de alho refogado e cebola de cabeça". Ri junto com ela. "Dona Raimunda, fazer feijão é uma arte". Não tive coragem de pedir para provar, mas começamos a conversar sobre comida e ela me contou que já cozinhou para mais de um governador aqui no Estado.

E durante treze anos, preparou refeições para o antigo dono da empresa, já falecido. Perguntei se ela gostava de cozinhar e a resposta foi previsível, com os olhos brilhando: "Adoro"! E perguntei então pelos seus pratos preferidos. Ela passou a me dar a receita de uma costela que faz no forno, com batatas. "Tem que ser a mindim, minha filha, outra não serve. Deixa temperada de véspera com sal, vinagre, pimenta e alho, depois de bem limpa. No outro dia, faz um refogado com todas as verdurinhas (tomate, pimenta de cheiro e cebola para o refogado e também pedaços grandes de tomate e cebola crus) e arruma na assadeira com um pouquinho de óleo. Coloca a costela em cima, cobre com papel alumínio e deixa mais ou menos uma hora no forno em temperatura alta. Depois baixa a temperatura para o mínimo e espera ficar macia. Aí é só colocar batatas ao lado para assar, tirar o papel alumínio, deixar dourar e comer". 

Fiquei salivando ao pensar na costela. Ela ainda me deu uma outra receita e combinamos que eu faria o teste e lhe contaria da próxima vez em que fosse por lá. Voltei para a sala e ainda esperei um bom tempo para o atendimento. Quando terminei, estávamos ambos, eu e o contador, vesgos de fome. Lembrei que havia trazido bolo e uma conserva de berinjela para o lanche e fomos até a copa. Dona Raimunda já tinha saído. A conserva foi consumida em minutos, junto com um pão fresco que milagrosamente apareceu por lá.

E se não saí feliz com a declaração de renda, pelo menos saí bem satisfeita com a nova amiga e sua receitinha. Passei antes de ontem no supermercado para comprar a costela. Temperei do meu jeito, fiz o refogadinho e coloquei no forno. Precisei sair e recomendei à minha empregada que olhasse de vez em quando, para evitar ressecamento.

Mas ao chegar em casa, ela havia retirado a costela da assadeira original e, pecado mortal, desprezado aquele restinho de assado que ao ser acrescido de um líquido, vira um molho delicioso. Quase surto, mas como se diz por aqui, barco perdido, bem carregado. A costela estava muito macia, de comer de colher. Fiz uma farofinha de quinua com castanha para acompanhar, pois as batatas não foram acrescidas ao assado. Ficarão para a próxima. Recomendo chamar os amigos e se deliciar, é muito bom. Aproveite!






Costela assada (quase) da dona Raimunda   

Ingredientes 

Para a costela

01 costela bovina mindim (ou mindinho), inteira, limpa (a que eu fiz pesou 3,450g)
01 cebola pequena, picada
05 dentes de alho, picadinhos
03 colheres de chá de páprica picante
01 colher de chá de sementes de coentro moídos
Sal e pimenta do Reino a gosto
02 raminhos de salsa e 02 folhas de chicória, picadinhos
02 colheres de sopa de azeite
Vinagre de maçã a gosto, para a marinada

Para colocar no forno

01 costela marinada, com os temperos e um pouco do líquido
01 cebola grande, picada
03 pimentas de cheiro sem sementes, picadas
01 colher de sopa de azeite
Um pouquinho do líquido da marinada 

Farofa de quinua e castanha do Brasil 

03 colheres de sopa de manteiga
03 colheres de sopa de cebola bem picada 
1/2 xícara de castanha do Brasil crua mas não fresca (a que se compra no supermercado), bem picada
01 xícara de quinua em flocos
Sal e pimenta a gosto
Castanhas inteiras para decorar (opcional)

Para decorar

Molho pronto de tâmara
Azeite
Galhinhos de manjerona

Molho

Resíduos da assadeira, retirado o excesso de óleo, fervidos com 3/4 xícara de água até encorpar bem e passados na peneira. Sirva em molheira à parte.

Modo de fazer

Para a costela

Tempere a costela com todos os ingredientes secos da marinada. Use pimenta do Reino moída na hora. Massageie bem a peça de costela, passe o azeite e borrife o vinagre por cima, a gosto. Arrume a peça em uma assadeira grande, cubra com filme plástico e deixe na geladeira até o dia seguinte, virando de vez em quando para o tempero pegar dos dois lados. No outro dia cedo, faça o refogado em uma frigideira, colocando o azeite, as cebolas e pimentas de cheiro. Regue com um pouquinho do caldo da marinada. Arrume esse refogado em uma assadeira grande que possa ir ao forno. Coloque por cima a costela, ajuste o sal e a pimenta, cubra com papel alumínio e leve ao forno na temperatura máxima por cerca de uma hora. Dê uma olhada na peça, torne a cobrir e recoloque no forno em temperatura bem baixa. De vez em quando retire para olhar e ver o ponto do cozimento e se precisa de um pouco de água. Aqui em casa, não precisou colocar nenhum líquido e demorou em torno de três horas e meia para ficar pronta, mas depende muito do forno. Quando ela estiver bem macia, retire o papel alumínio e deixe dourar. Se usar batatas, coloque-as para assar junto, de maneira que ainda peguem um pouquinho do líquido da assadeira. Quando a costela assar, retire-a com o máximo cuidado para o prato de servir. Deglace a assadeira colocando água ou vinho, após ter retirado o excesso de óleo, para que esses resíduos do assado possam se tornar um molho escuro que pode ser servido por cima da carne. (Minha empregada não me permitiu fazer o molho, mas são ossos do ofício, quem mandou sair de casa antes de terminar o assado?). Sirva com a farofa de quinua e castanha e se desejar, arroz branco ou purê. Fica deliciosa!

Para a farofa de quinua e castanha do Brasil

Numa frigideira, coloque a manteiga e aguarde derreter, sem deixar queimar. Junte a cebola picadinha e a castanha e vá mexendo até que a castanha fique crocante. Junte os flocos de quinua e mexa continuamente. Tempere com sal e pimenta a gosto e retire do fogo. Reserve até o momento de servir.

Para a montagem

Arrume um fio de molho de tâmara (que se compra em supermercado ou casa de produtos árabes) no prato. Coloque a costela, um pouco da farofa e enfeite com uma castanha inteira, se desejar. Coloque um galhinho de manjerona ou outro de sua preferência, um pouquinho de azeite e sirva. À parte, deixe uma molheira com o molho, para que cada um se sirva. Bom apetite!

domingo, 26 de abril de 2015

DE ESQUINA PARA ESQUINA




A primeira vez que ouvi a música Sampa, cantada pelo Caetano Veloso,  tomei um baita susto. Estava descendo do ônibus, quase na esquina da escola para a qual tinha acabado de me transferir, em Fortaleza, após insistir muito com a minha mãe e acompanhar os primos que também estavam de mudança para lá. Tudo era novo, diferente. Aquela música entrou nos meus ouvidos feito uma explosão e marcou para a eternidade aquele meu momento especial de início de independência.

Não a escutei toda, é claro. Não dava tempo. Mas fiquei com o som na cabeça a caminho da escola e jamais esqueci aquele dia. Levei um tapa. Carinhoso, é verdade. Na minha memória, me vejo caminhando pelo corredor do ônibus rumo à porta, bem devagar para aproveitar melhor a canção. Era eu, adolescente, rodeada de coisas novas, amigos novos e sem a rede de proteção mais próxima de pai, mãe e irmãos . Tinha que fazer render a mesada, pegava ônibus sozinha e era quase, quase, minha própria dona. Claro, tinha todas as restrições normais da idade e de morar com a avó e perto dos tios, mas agora, com um poder de decisão bem maior. Ou assim eu me sentia.

Apesar dos quatorze anos recém-completados, nunca fui roqueira. Sempre gostei de música popular brasileira e embora meus maiores ídolos bebessem nessa fonte, não me aproximei do rock em nenhum momento da vida. Só muito mais tarde pude atenuar essa ausência, ainda que não de forma total. E desde muito nova já morria de amores pelo Milton, Chico Buarque e Caetano, meus preferidos à época. Em Fortaleza, aprendi a amar Adoniran Barbosa. No último ano da escola, aos sábados havia uma roda de música. Um dos colegas, que se chamava Ednardo, vinha de uma família musical. E levava para o colégio seu cavaquinho, tocado de ouvido. Cantávamos todos juntos até o tocador cansar e termos que ir para casa.

Eram os melhores momentos do dia para mim. Até hoje os versos do Adoniran ecoam na minha cabeça junto com as risadas dos vários colegas que faziam dos sábados momentos muito especiais.

"...De tanto levar "frechada" do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê
"Tálbua" de tiro ao "'álvaro"
Não tem mais onde furar..
.
E vejo de novo o Ednardo, magrinho, com seu cabelo muito fino e escorrido, a nos deleitar com músicas que passaram a fazer parte da minha história de vida. Lembrei-me de tudo isso ao ligar o rádio um dia desses e me deparar com a mesma Sampa da minha adolescência, na voz de uma outra cantora, a quem não reconheci, numa interpretação que não lhe fez justiça, a meu ver. Mesmo assim, provocou-me uma enxurrada de boas lembranças. Me aventurei cedo no mundo, sempre com total apoio dos meus pais, que me deram liberdade para voar.

Minha mãe morria de saudades e chorava todo dia quando resolvi ir para o Ceará. E eu fui toda sorridente. Tive que lembrar bem disso quando foi a vez dos meus próprios filhos quererem zarpar. Quase me acabei quando o mais mais novo decidiu ir embora para uma cidade onde nunca tinha pisado os pés, morar sozinho e se virar com uma faculdade que exige dedicação absoluta e muita disciplina. Mas eis que o rapazinho tem sobrevivido muito bem e, à exceção dos Miojos da vida, eterna fonte de discordância da mãe cozinheira, ele tem dado um show.

Tive que exercitar muito o desapego, não sem dor. Mas finalmente compreendi que o amor é maior que a distância e que eles estão longe dos olhos, mas sempre perto do coração.  Lembrei dos meus pais e sequei as lágrimas com as lembranças das saudades que eles sentiram na minha época e com a oportunidade que meus filhos estão tendo de aprender coisas novas e amadurecer mais rápido.

E para celebrar esses ritos de passagem, nada melhor do que um som na caixa, amigos queridos e uma comidinha especial. Então, aproveite e faça esse filé com molho de castanha do Brasil. É fácil, rápido e tem um sabor leve e muito saboroso. Sirva com um arroz sete grãos acrescido de passas e um bom azeite. Se quiser exagerar no carboidrato, se jogue nessa batata também (veja em http://mesanafloresta.blogspot.com.br/2013/02/para-confortar-alma.html). Um bom vinho e a conversa vai longe. Bom apetite!





Filé ao molho de castanha do Brasil

Ingredientes

para o filé

06 a 08 bifes grossos de filé (aproximadamente três dedos de espessura)
sal e pimenta do reino moída na hora, a gosto
Óleo ou azeite, para a fritura

Para o molho de castanha do Brasil

02 xícaras de castanha crua, mas não fresca (a que se compra em supermercado, levemente desidratada)
02 xícaras de água
sal e pimenta do reino a gosto
Pimenta rosa (sementes de aroeira) para enfeitar e aromatizar 

Modo de fazer  

Para o filé

Aqueça bem uma chapa de ferro ou frigideira grossa. Acrescente um pouquinho de azeite ou óleo de boa qualidade, gire a frigideira para que ela fique toda untada e coloque os bifes, no máximo dois por vez. Deixe selar de cada lado por alguns minutos. Caso vá servi-los em seguida, observe o ponto para que a carne não perca a maciez e nem fique dura. Retire os bifes e reserve-os em uma travessa. Frite os demais e arrume-os todos na travessa. Desligue o fogo. Após alguns minutos, recolha o suco que se desprendeu da carne e coloque na frigideira. Acrescente o leite da castanha coado e deixe ferver por alguns minutos, até que engrosse um pouco. Ajuste o sal e a pimenta, caso deseje. Arrume os bifes com cuidado na frigideira e deixe ferver por uns dois minutos, sem mexer. Retire-os e arrume-os no prato de servir. Caso demore a servir, deixe o molho na frigideira e esquente-o na hora de levar o prato à mesa, derramando-o por cima dos filés. Enfeite com a pimenta rosa e sirva. 

Para o molho

Bata muito bem a castanha com a água no liquidificador, até virar um creme. Coe com cuidado em pano limpo, bem fino. O bagaço pode ser congelado e usado para bolos e biscoitos. O leite restante deverá ser acrescentado à frigideira em que os bifes foram fritos, com o suco da carne após a fritura, até engrossar um pouco. De preferência, fazer o leite o mais perto possível de fazer o molho ou dar uma ligeira fervura, se demorar a usar. Também pode ser congelado.

Para a montagem

Na travessa de servir, arrume os filés, derrame o molho a gosto e enfeite com a pimenta rosa. Sirva com arroz sete grãos ou arroz branco, ou batata assada.

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Para saber mais:

Sampa - veja e ouça em http://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/sampa.html

Tiro ao Álvaro - veja e ouça http://www.vagalume.com.br/adoniran-barbosa/tiro-ao-alvaro.html

Dedicado ao meu amigo Ednardo, a quem não vejo há mais de trinta anos e a todos os colegas e professores do colégio Christus - 1979 a 1981



domingo, 12 de abril de 2015

DIA DE PEIXE

Arroz com azeite de jambu, surubim frito empanado na farinha de mandioca, farofa de jambu, gominhos de limão e um pouco do azeite temperado para enfeitar...




Peço desculpas, mas estou com várias postagens atrasadas aqui no blog. Estou em um longo tratamento para amenizar sequelas de uma Ler/Dort tão antiga quanto desaforada, um tempo bem corrido, cheio de afazeres prazerosos, e tenho cozinhado pouco, pois não posso me exceder de jeito nenhum. Se tem uma coisa boa que o tempo nos faz, é adquirir sabedoria para saber quando parar, ou melhor, quando diminuir.

Estou nesse exercício, o que nem sempre é fácil para mim, acostumada a fazer tudo ao mesmo tempo e agora, mas é preciso. Mas não me entrego. Então, é trabalho, fisioterapia, exercício para os pés, para o joelho, ombros e cotovelos. Pensaram que era só nos braços? Que nada, para quem gosta de muito, sofrimento pouco é bobagem, então também tenho esporão de calcâneo e mais alguns penduricalhos. Ou seja, de novo: não posso exagerar.



Assim, acompanhada da minha fiel escudeira Ivone, fui no sábado ao mercado e enchi-a de sacolas de compras, uma vez que não posso pegar peso: compramos açaí batido na hora e farinha de tapioca, surubim fresco, filé de pirarucu bem cheiroso, jambu, farinha de mandioca e gordas costelinhas de porco para o maridão. Uma farra só.

Logo cedo, no domingo, com muito cuidado, cortei verdurinhas  e preparei uma farofa com peixe que ficou uma delícia. Como não posso me esticar na prosa, passo a receita para que vocês façam em casa, aproveitando a semana santa que está na porta. Bom apetite!

(Esse post foi feito antes da Semana Santa mas não concluído. Resolvi manter o texto original)







Surubim empanado na farinha de mandioca, com farofa de jambu e arroz com azeite de jambu 

Ingredientes

Para o peixe

01 kg de surubim fresco, cortado em postas, já sem pele e espinhas
Sal e limão
Farinha de mandioca crua, batida no liquidificador, para empanar
Óleo para a fritura

Para o azeite de jambu

1/2 xícara de azeite extravirgem de boa qualidade
07 a 08 ramos de jambu fresco com talos, folhas e flores (desprezar os talos mais duros)

Para a farofa de jambu

01 colher de sobremesa de manteiga
02 colheres de sobremesa de óleo
01 colher de sobremesa de alho picadinho 
02 colheres de sobremesa de cebola bem picada
01 colher de sobremesa de pimenta vermelha doce bem picada (na falta, use pimentão vermelho picadinho)
01 colher de sobremesa de pimentão verde bem picado
03 colheres de sobremesa do bagaço de jambu batido com o azeite (depois de passado na peneira para retirar o azeite, sobra este bagaço)
01 maço pequeno de jambu (talos, flores e folhas), já lavado e seco
Sal e pimenta do Reino a gosto
Farinha de mandioca quanto baste (entre 1,5 a 2 xícaras aproximadamente. Não deve ficar seca demais, por isso coloque a farinha aos poucos. Talvez não precise colocar tudo).

Para o arroz

01 colher de sobremesa do azeite de jambu
02 colheres de sobremesa do bagaço de jambu
02 xícaras de arroz branco cozido

Para acompanhar

Gominhos de limão sem a casca nem a parte branca, a gosto
Azeite de jambu, a gosto

Modo de fazer

Para o peixe

Lave as postas e escorra. Numa vasilha, coloque as postas, um pouco de água e suco de limão e deixe por uns cinco minutos. Lave novamente e escorra. Coloque mais sal do que o necessário para temperar cada posta e deixe por dez minutos. Lave de novo, retirando o excesso de sal. Enxugue cada posta com papel toalha ou um pano de prato bem limpo e reserve. Passe cada posta na farinha de mandioca batida no liquidificador até empanar bem. Frite em óleo quente, poucos pedaços por vez. Escorra um pouco, de preferência em uma grade de metal e sirva com os acompanhamentos.

Para o azeite de jambu

Amorne muito levemente o azeite numa frigideira. Coloque o jambu e aguarde uns cinco minutos. Bata o azeite com o jambu no liquidificador, até ficar muito bem misturado. Coe o azeite e reserve em um vidro ou tigelinha. Aproveite o bagaço que sobrou na farofa e arroz. Obs: esse azeite fica com um tom de verde bonito, mas tem um sabor bem suave de jambu.

Para a farofa de jambu

Numa frigideira larga, coloque a manteiga e o óleo, em fogo médio. Acrescente o alho e a cebola e deixe dourar um pouco. Coloque a pimenta doce vermelha (ou pimentão), o pimentão verde e o bagaço de jambu. Deixe fritar um pouquinho. Acrescente o ma,o de jambu, sal e pimenta a gosto e deixe que ele murche um pouco, mexendo de vez em quando. Diminua o fogo, acrescente a farinha e vá mexendo até que fique os ingredientes fiquem bem incorporados. Desligue o fogo e reserve numa tigela até o momento de servir.

Para o arroz de jambu

Numa frigideira em fogo baixo, coloque o azeite e o bagaço de jambu. Acrescente o arroz cozido e mexa até incorporar bem. Reserve numa tigela até a hora de servir.

Para servir

Monte os pratos como a foto de cima ou coloque em travessas para os convidados se servirem. Acompanhe com gominhos de limão, o azeite reservado e, se desejar, uma boa pimenta.


domingo, 1 de março de 2015

DOCES LEMBRANÇAS


As madalenas, prontas para serem degustadas...


Já faz uns dias que me pego a olhar pequenas crianças na rua, grudadinhas no colo de seus pais ou orgulhosamente acompanhando familiares às compras, ao cinema ou ao supermercado. Lembro dos meus pequenos grandes meninos e parece que foi ontem que estava a levá-los para a escola e acompanhando-os nas pequenas tarefas do dia-a-dia. Acho que nem fui uma mãe lá muito paciente. Muitas vezes só faltava surtar com a energia deles sempre a 220 volts, principalmente o hoje calmíssimo filho mais velho.

Mas também lembro das inúmeras vezes em que havia um bolo fresco e cheiroso a esperá-los para acompanhar o café, o suco sempre feito de frutas naturais e o cheiro do pão se espalhando pela casa. Eles não cozinham muito, mas sempre rio de uma ocasião em que o mais velho meteu a colher em um pudim feito fora de casa e torceu o nariz na mesma hora. "Não era o seu, mãe, tinha gosto de farinha!".

Agora que moram longe, se viram para improvisar um bife ou massa ou um sanduíche com café e leite, com cuidado para não perder os horários. O mais novo mal tem tempo para respirar. De noite, segundo ele, sobrevive de Miojo e café, o que me faz arregalar os olhos e rezar para que pelo menos o café da manhã e o almoço sejam mais saudáveis. O mais velho já fez todas as contas e só cozinha aos fins de semana, para economizar tempo e dinheiro. Mas já descobriu os cantinhos de se alimentar com comida caseira durante a semana e quando precisa, faz um belo molho de tomate para acompanhar a massa.

O mais novo é o rei do café preto, forte e escuro, mas também adora um bife, que frita muito bem. Além disso, na ausência de batedeira é o meu boleiro preferido. Reclama, mas atende direitinho às instruções. Não come quase nada de doces, mas isso o irmão mais velho compensa direitinho. Em compensação, devora os pratos enormes que a idade permite e ainda está na fase de não engordar uma grama. Ah, os vinte anos...que ele ainda vai fazer... 

Lembro de mim, quando criança, sempre de olho na cozinha. Meu pai fazia um ótimo pirarucu ao leite e charutos como ninguém. Eu, menina magrela e nojenta para comer, só gostava de arroz e bife. Comida misturada no prato, nem pensar. Cada bocado, aliás até hoje, é levado um por um à boca. A mistura se faz aí, nunca antes. Não comia farinha, nem ovo, o feijão só o que meu pai fazia, com banana comprida e jabá, numa tigelinha separada. Ah, o sabor daquele feijão gorgotuba de caldo grosso, com os pedaços de charque salgada dividindo o espaço com a banana mais doce e macia...de comer rezando!

Meu pai nos obrigava a comer salada, ou melhor, o que havia disponível naquela época. Lembro que no prato não faltava alface meio amarguenta, tomate, batata e o repolho, meu preferido, porque ele o cortava finíssimo. Eu juntava muito vinagre e comia pratos imensos, mas era só. Ainda bem que não ficamos traumatizados com os verdes, pois a punição para quem não comia era severa.

Para compensar, havia os aniversários. Não, não era qualquer aniversário. Eram os aniversários de antigamente, simples, até mesmo frugais em comparação com os de hoje, mas que diferença! As balas eram caprichosamente embrulhadas com papel de seda, cortados de um por um, cheios de lindas franjas, assim como os papéis para bom-bocados, mais difíceis de fazer e que ficavam lindamente pendurados pela mesa, atiçando a imaginação dos pequenos. E nada de bombom embrulhado, por favor! As balas eram artesanais, feitas de maracujá, leite, chocolate, coco ou cupuaçu, pequenos quadradinhos de céu. 

Os bom-bocados eram quase sempre os últimos a serem distribuídos, disputados nas suas belas rendas. Havia os olhos de sogra, um docinho feito de ameixa e doce de coco ou leite condensado, olhos grandes e esbugalhados, sempre abertos, mas verdadeiramente deliciosos! Até hoje não me contenho quando os vejo, mas não existem mais nos aniversários modernos. É preciso fazê-los em casa para sentir-lhes o sabor e a infância correndo ao lado. 

Havia os biscoitinhos molhados no chocolate até a metade para quem tinha sorte de ir em grandes festas, mais refinadas. Os casadinhos, recheados com goiabada e embrulhados em papel celofane vermelho, ficavam bonitos de ver e mais ainda na boca. Lembro das biribas, com coco e uma tirinha de ameixa e dos beijinhos, feitos com coco e um cravo, como bem diz minha tia Myosote, para dar sabor, mesma função nas madalenas. Ah, as madalenas!

Um bolo fofinho, depois mergulhado em uma calda de maracujá que o deixava bem encharcado. Depois de secar um pouco, era passado no açúcar cristal e ganhava um cravinho. Lindamente enfeitado, ia brilhar na mesa até que fosse dada a ordem para o ataque. Na minha casa não fazíamos todos estes doces. Eu era bem pequena e minha mãe gostava mais de comê-los, embora fizesse balinhas de leite, chocolate e cupuaçu. Mas de uma coisa ela fazia questão: o bolo de aniversário feito pela dona Zita ou dona Corina, quituteiras das boas. Havia o de ameixa, coberto de glacê branco e o meu preferido, recheado de ameixa e coberto de doce de leite, uma verdadeira perdição.

Dona Corina, segundo minha mãe, fazia deliciosos bom-bocados, encomendados para nossos aniversários de criança. Quando minha avó materna, mestra de doces e salgados, estava conosco, fazia um bolo delicioso, cuja receita já fiz por aqui  (veja em http://mesanafloresta.blogspot.com.br/2014/11/queridos-que-se-foram.html). Coberto com um glacê a base de manteiga, açúcar, castanha e café, é de sair da dieta sem olhar para trás. Os bolos sem glacê eram cobertos com papel de seda colorido, todo picotado a mão, formando belos desenhos, cada um mais bonito do que o outro.

Minha avó materna também era das boas. Em seu pequeno hotel, servia refeições, "dava pensão", como se diz por aqui. Dela, lembro bem de duas guloseimas: o frango assado para os bingos, com azeitonas e farofa, envolto em papel celofane e um docinho, cujo sabor reencontrei mais de quarenta anos depois, no casamento de um primo. Lembro de mim, tão pequena que sequer alcançava a mesa, tentando pegar balinhas brancas recheadas de cupuaçu, numa mesa da casa da minha avó, em um aniversário. Descobri depois ser provavelmente doce de cupuaçu coberto de fondant e só o comi novamente nesse casamento, um manjar dos deuses. 

Havia os salgados, é claro. Mas destes, dos que mais me lembro em minha casa, eram as famosas empadinhas da Iva, mãe do Fabiano, que foi dono por muitos anos de uma sorveteria que fazia o melhor sorvete de cajá que eu já tomei, ao ponto de por várias vezes, exagerar como só os muito jovens conseguem fazer e tomar quatro de uma vez só.

As empadinhas chegavam em tabuleiro de madeira, douradas e suculentas. Os canudinhos e pastéis da Maria Alencar também fizeram história e um dos pratos servidos para os adultos eu lembro bem: arroz feito na água fervente, escorrido numa grande peneira e misturado com manteiga, frango de terreiro bem desfiado, a farofinha e o vatapá, sempre de camarão. Camarão de lata, claro, que aqui e ali a gente dava um jeitinho de comer escondido, com o sal a nos encher de lágrimas os olhos.

Não lembro de outros pratos também muito comuns nessa época, como galinha picante e a famosa rabada e pato ao tucupi. Não eram feitas nos nossos aniversários, mas com certeza faziam parte e ainda fazem das festas de hoje, entre vários outro pratos. 

Precisamos sempre resgatar e cultivar nossa memória. Ela nos diz quem somos, de onde viemos e para onde pretendemos ir. Por isso, trago aqui a receita das madalenas, um dos doces preferidos de minha mãe e suas irmãs. Eu as fiz em forminhas de empada e de pequenos bom-bocados, mas pode ser feita em assadeira e cortada em pequenos quadradinhos, como era servida no meu tempo de criança. Usei uma receita antiga de uma senhora paraense, publicada na revista Cláudia Cozinha de mar/95.

Escrevi o título desse post para homenagear dona Chloé Loureiro, acreana de Sena Madureira radicada em Manaus e que escreveu um livro maravilhoso, já esgotado, onde nos brinda com sua autobiografia e as receitas da sua infância, chamado Doces Lembranças.  No livro, além de acompanhar suas memórias, é possível ler várias receitas do Acre de antigamente, algumas até hoje no cardápio de restaurantes e nas casas das famílias, outras que já não se vêem mais. 

Meu querido companheiro conseguiu comprá-lo via internet e como só as pessoas especiais e queridas conseguem fazer, presenteou-me em 2008. Quem tiver interesse, pode enviar-me suas receitas de infância, podemos fazer aqui um belo banco de dados. Aproveitem!

(Caso queiram fazer contato, favor comentarem neste blog ou enviarem e-mail para patrycia.ac@gmail.com)






Madalenas 

Ingredientes

Para o bolo ou bolinhos

01 xícara de manteiga
1 1/3 xícara de açúcar refinado
08 ovos separados
2 1/4 xícara de farinha de trigo peneirada
01 colher de sopa de fermento em pó
01 colher de chá de baunilha (opcional)

Para a calda

02 xícaras de açúcar refinado
01 xícara de suco puro de maracujá
01 xícara de água

Para passar

Açúcar cristal (ou refinado) quanto baste
Cravos da Índia, quanto baste

Modo de fazer

Para o bolo ou bolinhos

Numa tigela, bata bem a manteiga com o açúcar. Misture as gemas passadas pela peneira e bata mais um pouco. Acrescente a farinha, o fermento, a baunilha e por último, as claras em neve. Coloque a massa em forminhas altas ou de empada, ou em uma assadeira, untadas e enfarinhadas. Leve para assar em forno preaquecido a 180 graus por 30 a 40 minutos, dependendo do forno. Deixe esfriar e desenforme. Passe-as na calda fria e deixe escorrer um pouco. Após, passe no açúcar e coloque um cravinho no centro. Se fizer na assadeira, corte em quadradinhos e siga o mesmo processo.

Para a calda

Numa panela, leve ao fogo a água, o suco puro de maracujá e o açúcar. mexa para misturar e deixe ferver até engrossar um pouquinho. Desligue o fogo e aguarde esfriar. Passe os bolinhos nessa calda antes de passá-los no açúcar.

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Para saber mais:
 
Doces Lembranças - Chloé Loureiro, editora Marco Zero, 1a. edição,  fevereiro de 1988


http://jmartinsrocha.blogspot.com.br/2012/03/residencia-centenaria-da-avenida.html