domingo, 26 de abril de 2015

DE ESQUINA PARA ESQUINA




A primeira vez que ouvi a música Sampa, cantada pelo Caetano Veloso,  tomei um baita susto. Estava descendo do ônibus, quase na esquina da escola para a qual tinha acabado de me transferir, em Fortaleza, após insistir muito com a minha mãe e acompanhar os primos que também estavam de mudança para lá. Tudo era novo, diferente. Aquela música entrou nos meus ouvidos feito uma explosão e marcou para a eternidade aquele meu momento especial de início de independência.

Não a escutei toda, é claro. Não dava tempo. Mas fiquei com o som na cabeça a caminho da escola e jamais esqueci aquele dia. Levei um tapa. Carinhoso, é verdade. Na minha memória, me vejo caminhando pelo corredor do ônibus rumo à porta, bem devagar para aproveitar melhor a canção. Era eu, adolescente, rodeada de coisas novas, amigos novos e sem a rede de proteção mais próxima de pai, mãe e irmãos . Tinha que fazer render a mesada, pegava ônibus sozinha e era quase, quase, minha própria dona. Claro, tinha todas as restrições normais da idade e de morar com a avó e perto dos tios, mas agora, com um poder de decisão bem maior. Ou assim eu me sentia.

Apesar dos quatorze anos recém-completados, nunca fui roqueira. Sempre gostei de música popular brasileira e embora meus maiores ídolos bebessem nessa fonte, não me aproximei do rock em nenhum momento da vida. Só muito mais tarde pude atenuar essa ausência, ainda que não de forma total. E desde muito nova já morria de amores pelo Milton, Chico Buarque e Caetano, meus preferidos à época. Em Fortaleza, aprendi a amar Adoniran Barbosa. No último ano da escola, aos sábados havia uma roda de música. Um dos colegas, que se chamava Ednardo, vinha de uma família musical. E levava para o colégio seu cavaquinho, tocado de ouvido. Cantávamos todos juntos até o tocador cansar e termos que ir para casa.

Eram os melhores momentos do dia para mim. Até hoje os versos do Adoniran ecoam na minha cabeça junto com as risadas dos vários colegas que faziam dos sábados momentos muito especiais.

"...De tanto levar "frechada" do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê
"Tálbua" de tiro ao "'álvaro"
Não tem mais onde furar..
.
E vejo de novo o Ednardo, magrinho, com seu cabelo muito fino e escorrido, a nos deleitar com músicas que passaram a fazer parte da minha história de vida. Lembrei-me de tudo isso ao ligar o rádio um dia desses e me deparar com a mesma Sampa da minha adolescência, na voz de uma outra cantora, a quem não reconheci, numa interpretação que não lhe fez justiça, a meu ver. Mesmo assim, provocou-me uma enxurrada de boas lembranças. Me aventurei cedo no mundo, sempre com total apoio dos meus pais, que me deram liberdade para voar.

Minha mãe morria de saudades e chorava todo dia quando resolvi ir para o Ceará. E eu fui toda sorridente. Tive que lembrar bem disso quando foi a vez dos meus próprios filhos quererem zarpar. Quase me acabei quando o mais mais novo decidiu ir embora para uma cidade onde nunca tinha pisado os pés, morar sozinho e se virar com uma faculdade que exige dedicação absoluta e muita disciplina. Mas eis que o rapazinho tem sobrevivido muito bem e, à exceção dos Miojos da vida, eterna fonte de discordância da mãe cozinheira, ele tem dado um show.

Tive que exercitar muito o desapego, não sem dor. Mas finalmente compreendi que o amor é maior que a distância e que eles estão longe dos olhos, mas sempre perto do coração.  Lembrei dos meus pais e sequei as lágrimas com as lembranças das saudades que eles sentiram na minha época e com a oportunidade que meus filhos estão tendo de aprender coisas novas e amadurecer mais rápido.

E para celebrar esses ritos de passagem, nada melhor do que um som na caixa, amigos queridos e uma comidinha especial. Então, aproveite e faça esse filé com molho de castanha do Brasil. É fácil, rápido e tem um sabor leve e muito saboroso. Sirva com um arroz sete grãos acrescido de passas e um bom azeite. Se quiser exagerar no carboidrato, se jogue nessa batata também (veja em http://mesanafloresta.blogspot.com.br/2013/02/para-confortar-alma.html). Um bom vinho e a conversa vai longe. Bom apetite!





Filé ao molho de castanha do Brasil

Ingredientes

para o filé

06 a 08 bifes grossos de filé (aproximadamente três dedos de espessura)
sal e pimenta do reino moída na hora, a gosto
Óleo ou azeite, para a fritura

Para o molho de castanha do Brasil

02 xícaras de castanha crua, mas não fresca (a que se compra em supermercado, levemente desidratada)
02 xícaras de água
sal e pimenta do reino a gosto
Pimenta rosa (sementes de aroeira) para enfeitar e aromatizar 

Modo de fazer  

Para o filé

Aqueça bem uma chapa de ferro ou frigideira grossa. Acrescente um pouquinho de azeite ou óleo de boa qualidade, gire a frigideira para que ela fique toda untada e coloque os bifes, no máximo dois por vez. Deixe selar de cada lado por alguns minutos. Caso vá servi-los em seguida, observe o ponto para que a carne não perca a maciez e nem fique dura. Retire os bifes e reserve-os em uma travessa. Frite os demais e arrume-os todos na travessa. Desligue o fogo. Após alguns minutos, recolha o suco que se desprendeu da carne e coloque na frigideira. Acrescente o leite da castanha coado e deixe ferver por alguns minutos, até que engrosse um pouco. Ajuste o sal e a pimenta, caso deseje. Arrume os bifes com cuidado na frigideira e deixe ferver por uns dois minutos, sem mexer. Retire-os e arrume-os no prato de servir. Caso demore a servir, deixe o molho na frigideira e esquente-o na hora de levar o prato à mesa, derramando-o por cima dos filés. Enfeite com a pimenta rosa e sirva. 

Para o molho

Bata muito bem a castanha com a água no liquidificador, até virar um creme. Coe com cuidado em pano limpo, bem fino. O bagaço pode ser congelado e usado para bolos e biscoitos. O leite restante deverá ser acrescentado à frigideira em que os bifes foram fritos, com o suco da carne após a fritura, até engrossar um pouco. De preferência, fazer o leite o mais perto possível de fazer o molho ou dar uma ligeira fervura, se demorar a usar. Também pode ser congelado.

Para a montagem

Na travessa de servir, arrume os filés, derrame o molho a gosto e enfeite com a pimenta rosa. Sirva com arroz sete grãos ou arroz branco, ou batata assada.

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Para saber mais:

Sampa - veja e ouça em http://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/sampa.html

Tiro ao Álvaro - veja e ouça http://www.vagalume.com.br/adoniran-barbosa/tiro-ao-alvaro.html

Dedicado ao meu amigo Ednardo, a quem não vejo há mais de trinta anos e a todos os colegas e professores do colégio Christus - 1979 a 1981



domingo, 12 de abril de 2015

DIA DE PEIXE

Arroz com azeite de jambu, surubim frito empanado na farinha de mandioca, farofa de jambu, gominhos de limão e um pouco do azeite temperado para enfeitar...




Peço desculpas, mas estou com várias postagens atrasadas aqui no blog. Estou em um longo tratamento para amenizar sequelas de uma Ler/Dort tão antiga quanto desaforada, um tempo bem corrido, cheio de afazeres prazerosos, e tenho cozinhado pouco, pois não posso me exceder de jeito nenhum. Se tem uma coisa boa que o tempo nos faz, é adquirir sabedoria para saber quando parar, ou melhor, quando diminuir.

Estou nesse exercício, o que nem sempre é fácil para mim, acostumada a fazer tudo ao mesmo tempo e agora, mas é preciso. Mas não me entrego. Então, é trabalho, fisioterapia, exercício para os pés, para o joelho, ombros e cotovelos. Pensaram que era só nos braços? Que nada, para quem gosta de muito, sofrimento pouco é bobagem, então também tenho esporão de calcâneo e mais alguns penduricalhos. Ou seja, de novo: não posso exagerar.



Assim, acompanhada da minha fiel escudeira Ivone, fui no sábado ao mercado e enchi-a de sacolas de compras, uma vez que não posso pegar peso: compramos açaí batido na hora e farinha de tapioca, surubim fresco, filé de pirarucu bem cheiroso, jambu, farinha de mandioca e gordas costelinhas de porco para o maridão. Uma farra só.

Logo cedo, no domingo, com muito cuidado, cortei verdurinhas  e preparei uma farofa com peixe que ficou uma delícia. Como não posso me esticar na prosa, passo a receita para que vocês façam em casa, aproveitando a semana santa que está na porta. Bom apetite!

(Esse post foi feito antes da Semana Santa mas não concluído. Resolvi manter o texto original)







Surubim empanado na farinha de mandioca, com farofa de jambu e arroz com azeite de jambu 

Ingredientes

Para o peixe

01 kg de surubim fresco, cortado em postas, já sem pele e espinhas
Sal e limão
Farinha de mandioca crua, batida no liquidificador, para empanar
Óleo para a fritura

Para o azeite de jambu

1/2 xícara de azeite extravirgem de boa qualidade
07 a 08 ramos de jambu fresco com talos, folhas e flores (desprezar os talos mais duros)

Para a farofa de jambu

01 colher de sobremesa de manteiga
02 colheres de sobremesa de óleo
01 colher de sobremesa de alho picadinho 
02 colheres de sobremesa de cebola bem picada
01 colher de sobremesa de pimenta vermelha doce bem picada (na falta, use pimentão vermelho picadinho)
01 colher de sobremesa de pimentão verde bem picado
03 colheres de sobremesa do bagaço de jambu batido com o azeite (depois de passado na peneira para retirar o azeite, sobra este bagaço)
01 maço pequeno de jambu (talos, flores e folhas), já lavado e seco
Sal e pimenta do Reino a gosto
Farinha de mandioca quanto baste (entre 1,5 a 2 xícaras aproximadamente. Não deve ficar seca demais, por isso coloque a farinha aos poucos. Talvez não precise colocar tudo).

Para o arroz

01 colher de sobremesa do azeite de jambu
02 colheres de sobremesa do bagaço de jambu
02 xícaras de arroz branco cozido

Para acompanhar

Gominhos de limão sem a casca nem a parte branca, a gosto
Azeite de jambu, a gosto

Modo de fazer

Para o peixe

Lave as postas e escorra. Numa vasilha, coloque as postas, um pouco de água e suco de limão e deixe por uns cinco minutos. Lave novamente e escorra. Coloque mais sal do que o necessário para temperar cada posta e deixe por dez minutos. Lave de novo, retirando o excesso de sal. Enxugue cada posta com papel toalha ou um pano de prato bem limpo e reserve. Passe cada posta na farinha de mandioca batida no liquidificador até empanar bem. Frite em óleo quente, poucos pedaços por vez. Escorra um pouco, de preferência em uma grade de metal e sirva com os acompanhamentos.

Para o azeite de jambu

Amorne muito levemente o azeite numa frigideira. Coloque o jambu e aguarde uns cinco minutos. Bata o azeite com o jambu no liquidificador, até ficar muito bem misturado. Coe o azeite e reserve em um vidro ou tigelinha. Aproveite o bagaço que sobrou na farofa e arroz. Obs: esse azeite fica com um tom de verde bonito, mas tem um sabor bem suave de jambu.

Para a farofa de jambu

Numa frigideira larga, coloque a manteiga e o óleo, em fogo médio. Acrescente o alho e a cebola e deixe dourar um pouco. Coloque a pimenta doce vermelha (ou pimentão), o pimentão verde e o bagaço de jambu. Deixe fritar um pouquinho. Acrescente o ma,o de jambu, sal e pimenta a gosto e deixe que ele murche um pouco, mexendo de vez em quando. Diminua o fogo, acrescente a farinha e vá mexendo até que fique os ingredientes fiquem bem incorporados. Desligue o fogo e reserve numa tigela até o momento de servir.

Para o arroz de jambu

Numa frigideira em fogo baixo, coloque o azeite e o bagaço de jambu. Acrescente o arroz cozido e mexa até incorporar bem. Reserve numa tigela até a hora de servir.

Para servir

Monte os pratos como a foto de cima ou coloque em travessas para os convidados se servirem. Acompanhe com gominhos de limão, o azeite reservado e, se desejar, uma boa pimenta.


domingo, 1 de março de 2015

DOCES LEMBRANÇAS


As madalenas, prontas para serem degustadas...


Já faz uns dias que me pego a olhar pequenas crianças na rua, grudadinhas no colo de seus pais ou orgulhosamente acompanhando familiares às compras, ao cinema ou ao supermercado. Lembro dos meus pequenos grandes meninos e parece que foi ontem que estava a levá-los para a escola e acompanhando-os nas pequenas tarefas do dia-a-dia. Acho que nem fui uma mãe lá muito paciente. Muitas vezes só faltava surtar com a energia deles sempre a 220 volts, principalmente o hoje calmíssimo filho mais velho.

Mas também lembro das inúmeras vezes em que havia um bolo fresco e cheiroso a esperá-los para acompanhar o café, o suco sempre feito de frutas naturais e o cheiro do pão se espalhando pela casa. Eles não cozinham muito, mas sempre rio de uma ocasião em que o mais velho meteu a colher em um pudim feito fora de casa e torceu o nariz na mesma hora. "Não era o seu, mãe, tinha gosto de farinha!".

Agora que moram longe, se viram para improvisar um bife ou massa ou um sanduíche com café e leite, com cuidado para não perder os horários. O mais novo mal tem tempo para respirar. De noite, segundo ele, sobrevive de Miojo e café, o que me faz arregalar os olhos e rezar para que pelo menos o café da manhã e o almoço sejam mais saudáveis. O mais velho já fez todas as contas e só cozinha aos fins de semana, para economizar tempo e dinheiro. Mas já descobriu os cantinhos de se alimentar com comida caseira durante a semana e quando precisa, faz um belo molho de tomate para acompanhar a massa.

O mais novo é o rei do café preto, forte e escuro, mas também adora um bife, que frita muito bem. Além disso, na ausência de batedeira é o meu boleiro preferido. Reclama, mas atende direitinho às instruções. Não come quase nada de doces, mas isso o irmão mais velho compensa direitinho. Em compensação, devora os pratos enormes que a idade permite e ainda está na fase de não engordar uma grama. Ah, os vinte anos...que ele ainda vai fazer... 

Lembro de mim, quando criança, sempre de olho na cozinha. Meu pai fazia um ótimo pirarucu ao leite e charutos como ninguém. Eu, menina magrela e nojenta para comer, só gostava de arroz e bife. Comida misturada no prato, nem pensar. Cada bocado, aliás até hoje, é levado um por um à boca. A mistura se faz aí, nunca antes. Não comia farinha, nem ovo, o feijão só o que meu pai fazia, com banana comprida e jabá, numa tigelinha separada. Ah, o sabor daquele feijão gorgotuba de caldo grosso, com os pedaços de charque salgada dividindo o espaço com a banana mais doce e macia...de comer rezando!

Meu pai nos obrigava a comer salada, ou melhor, o que havia disponível naquela época. Lembro que no prato não faltava alface meio amarguenta, tomate, batata e o repolho, meu preferido, porque ele o cortava finíssimo. Eu juntava muito vinagre e comia pratos imensos, mas era só. Ainda bem que não ficamos traumatizados com os verdes, pois a punição para quem não comia era severa.

Para compensar, havia os aniversários. Não, não era qualquer aniversário. Eram os aniversários de antigamente, simples, até mesmo frugais em comparação com os de hoje, mas que diferença! As balas eram caprichosamente embrulhadas com papel de seda, cortados de um por um, cheios de lindas franjas, assim como os papéis para bom-bocados, mais difíceis de fazer e que ficavam lindamente pendurados pela mesa, atiçando a imaginação dos pequenos. E nada de bombom embrulhado, por favor! As balas eram artesanais, feitas de maracujá, leite, chocolate, coco ou cupuaçu, pequenos quadradinhos de céu. 

Os bom-bocados eram quase sempre os últimos a serem distribuídos, disputados nas suas belas rendas. Havia os olhos de sogra, um docinho feito de ameixa e doce de coco ou leite condensado, olhos grandes e esbugalhados, sempre abertos, mas verdadeiramente deliciosos! Até hoje não me contenho quando os vejo, mas não existem mais nos aniversários modernos. É preciso fazê-los em casa para sentir-lhes o sabor e a infância correndo ao lado. 

Havia os biscoitinhos molhados no chocolate até a metade para quem tinha sorte de ir em grandes festas, mais refinadas. Os casadinhos, recheados com goiabada e embrulhados em papel celofane vermelho, ficavam bonitos de ver e mais ainda na boca. Lembro das biribas, com coco e uma tirinha de ameixa e dos beijinhos, feitos com coco e um cravo, como bem diz minha tia Myosote, para dar sabor, mesma função nas madalenas. Ah, as madalenas!

Um bolo fofinho, depois mergulhado em uma calda de maracujá que o deixava bem encharcado. Depois de secar um pouco, era passado no açúcar cristal e ganhava um cravinho. Lindamente enfeitado, ia brilhar na mesa até que fosse dada a ordem para o ataque. Na minha casa não fazíamos todos estes doces. Eu era bem pequena e minha mãe gostava mais de comê-los, embora fizesse balinhas de leite, chocolate e cupuaçu. Mas de uma coisa ela fazia questão: o bolo de aniversário feito pela dona Zita ou dona Corina, quituteiras das boas. Havia o de ameixa, coberto de glacê branco e o meu preferido, recheado de ameixa e coberto de doce de leite, uma verdadeira perdição.

Dona Corina, segundo minha mãe, fazia deliciosos bom-bocados, encomendados para nossos aniversários de criança. Quando minha avó materna, mestra de doces e salgados, estava conosco, fazia um bolo delicioso, cuja receita já fiz por aqui  (veja em http://mesanafloresta.blogspot.com.br/2014/11/queridos-que-se-foram.html). Coberto com um glacê a base de manteiga, açúcar, castanha e café, é de sair da dieta sem olhar para trás. Os bolos sem glacê eram cobertos com papel de seda colorido, todo picotado a mão, formando belos desenhos, cada um mais bonito do que o outro.

Minha avó materna também era das boas. Em seu pequeno hotel, servia refeições, "dava pensão", como se diz por aqui. Dela, lembro bem de duas guloseimas: o frango assado para os bingos, com azeitonas e farofa, envolto em papel celofane e um docinho, cujo sabor reencontrei mais de quarenta anos depois, no casamento de um primo. Lembro de mim, tão pequena que sequer alcançava a mesa, tentando pegar balinhas brancas recheadas de cupuaçu, numa mesa da casa da minha avó, em um aniversário. Descobri depois ser provavelmente doce de cupuaçu coberto de fondant e só o comi novamente nesse casamento, um manjar dos deuses. 

Havia os salgados, é claro. Mas destes, dos que mais me lembro em minha casa, eram as famosas empadinhas da Iva, mãe do Fabiano, que foi dono por muitos anos de uma sorveteria que fazia o melhor sorvete de cajá que eu já tomei, ao ponto de por várias vezes, exagerar como só os muito jovens conseguem fazer e tomar quatro de uma vez só.

As empadinhas chegavam em tabuleiro de madeira, douradas e suculentas. Os canudinhos e pastéis da Maria Alencar também fizeram história e um dos pratos servidos para os adultos eu lembro bem: arroz feito na água fervente, escorrido numa grande peneira e misturado com manteiga, frango de terreiro bem desfiado, a farofinha e o vatapá, sempre de camarão. Camarão de lata, claro, que aqui e ali a gente dava um jeitinho de comer escondido, com o sal a nos encher de lágrimas os olhos.

Não lembro de outros pratos também muito comuns nessa época, como galinha picante e a famosa rabada e pato ao tucupi. Não eram feitas nos nossos aniversários, mas com certeza faziam parte e ainda fazem das festas de hoje, entre vários outro pratos. 

Precisamos sempre resgatar e cultivar nossa memória. Ela nos diz quem somos, de onde viemos e para onde pretendemos ir. Por isso, trago aqui a receita das madalenas, um dos doces preferidos de minha mãe e suas irmãs. Eu as fiz em forminhas de empada e de pequenos bom-bocados, mas pode ser feita em assadeira e cortada em pequenos quadradinhos, como era servida no meu tempo de criança. Usei uma receita antiga de uma senhora paraense, publicada na revista Cláudia Cozinha de mar/95.

Escrevi o título desse post para homenagear dona Chloé Loureiro, acreana de Sena Madureira radicada em Manaus e que escreveu um livro maravilhoso, já esgotado, onde nos brinda com sua autobiografia e as receitas da sua infância, chamado Doces Lembranças.  No livro, além de acompanhar suas memórias, é possível ler várias receitas do Acre de antigamente, algumas até hoje no cardápio de restaurantes e nas casas das famílias, outras que já não se vêem mais. 

Meu querido companheiro conseguiu comprá-lo via internet e como só as pessoas especiais e queridas conseguem fazer, presenteou-me em 2008. Quem tiver interesse, pode enviar-me suas receitas de infância, podemos fazer aqui um belo banco de dados. Aproveitem!

(Caso queiram fazer contato, favor comentarem neste blog ou enviarem e-mail para patrycia.ac@gmail.com)






Madalenas 

Ingredientes

Para o bolo ou bolinhos

01 xícara de manteiga
1 1/3 xícara de açúcar refinado
08 ovos separados
2 1/4 xícara de farinha de trigo peneirada
01 colher de sopa de fermento em pó
01 colher de chá de baunilha (opcional)

Para a calda

02 xícaras de açúcar refinado
01 xícara de suco puro de maracujá
01 xícara de água

Para passar

Açúcar cristal (ou refinado) quanto baste
Cravos da Índia, quanto baste

Modo de fazer

Para o bolo ou bolinhos

Numa tigela, bata bem a manteiga com o açúcar. Misture as gemas passadas pela peneira e bata mais um pouco. Acrescente a farinha, o fermento, a baunilha e por último, as claras em neve. Coloque a massa em forminhas altas ou de empada, ou em uma assadeira, untadas e enfarinhadas. Leve para assar em forno preaquecido a 180 graus por 30 a 40 minutos, dependendo do forno. Deixe esfriar e desenforme. Passe-as na calda fria e deixe escorrer um pouco. Após, passe no açúcar e coloque um cravinho no centro. Se fizer na assadeira, corte em quadradinhos e siga o mesmo processo.

Para a calda

Numa panela, leve ao fogo a água, o suco puro de maracujá e o açúcar. mexa para misturar e deixe ferver até engrossar um pouquinho. Desligue o fogo e aguarde esfriar. Passe os bolinhos nessa calda antes de passá-los no açúcar.

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Para saber mais:
 
Doces Lembranças - Chloé Loureiro, editora Marco Zero, 1a. edição,  fevereiro de 1988


http://jmartinsrocha.blogspot.com.br/2012/03/residencia-centenaria-da-avenida.html


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

QUANDO OS ACREANOS SE ENCONTRAM

Marcos Afonso, Sandro Gouveia e Adelaide Gonçalves, no Plebeu


Passei uns dias em Fortaleza, cuidando dos pequenos grandes filhos com mordomias de hotel cinco estrelas caseiro. Café na cama, sanduíche quente já cortadinho, suco bem gelado e almoço simples, porém caprichado. Aqui e ali, pequenas pausas para rever os amigos, dar uma olhada nos blocos de carnaval revigorados e espaços revitalizados como o lindo Mercado dos Pinhões.

Fortaleza tem uma grande colônia acreana, que por ironia do destino, fez o caminho de volta empreendido  por pais, avós e bisavós que saíram do interior do Ceará e se estabeleceram há muitos anos no Acre. Esses "retornantes", por assim dizer, hoje moram, estudam, trabalham ou simplesmente curtem essa cidade grande com jeito e cara de cidade do interior, cheia de pequenas e grandes belezas.

É por isso que nessa estadia consegui encontrar alguns amigos e até mesmo primos sem nenhuma prévia combinação. Talvez pelo tempo que morei por lá, não me sinta turista em nenhum momento e fico tão à vontade lá como cá. Quando lá estou, vivo topando com amigos e amigas, antigos colegas de trabalho e até mesmo parentes com a maior tranquilidade.

Das visitas combinadas, tive o maior prazer e orgulho de encontrar meu antigo professor de Química quando iniciei Agronomia na UFC, infelizmente abandonada por vários motivos. Vejam bem, antigo porque faz tempo que isso aconteceu, porque como registro da verdade tenho que dizer que o Sandro Gouveia é mais novo do que eu.

Formado lá mesmo na UFC, Sandro é filho de uma tradicional família do Acre e foi o responsável pela implantação do curso de Gastronomia da Universidade Federal do Ceará. Hoje, pela competência que tem, ampliou seu campo de atuação e é o diretor do ICA – Instituto de Cultura e Arte da UFC, responsável por vários cursos de graduação e alguns de pós-graduação, tão diferentes entre si quanto em grau de complexidade, entre os quais Jornalismo e Gastronomia, além de Música e Filosofia, para citar alguns.

Como todo bom acreano caprichoso que se preze, Sandro aguarda e monitora as novas instalações de alguns dos cursos que acompanha, lá no Campus do Pici, mas já deu a sua cara ao local, ao criar um espaço mais do que charmoso como sala de estudo e orientação. Peças de artesanato convivem com luminárias feitas de antigos dosadores de arroz e feijão, fouets e livros de culinária antigos e novos.






Do lado de fora, os jardins já recebem as primeiras mudas de hortelã, manjericão e capim santo, tudo produzido por ele em sua própria casa,  transformando o espaço em um local muito acolhedor. O acervo inicial ganhou um presente mais do que especial, vindo de outra apaixonada pelos livros e pela gastronomia: Adelaide Gonçalves, professora, historiadora, escritora, militante das artes e principal organizadora do primeiro “Gabinete de Leitura” de Fortaleza, o Plebeu. 


Eu e Adelaide, no Plebeu - Gabinete de Leitura


De seu acervo pessoal, em torno de mil livros e revistas foram doados para a biblioteca do espaço dedicado à gastronomia. Mas esse não é o primeiro ato de generosidade dessa professora dedicada. Miúda, acolhedora, dona de um acervo próprio de quase quinze mil livros, achou que era a hora de repartir o pão e o conhecimento. Assim começa a história do Plebeu -  Gabinete de Leitura,  hoje instalado no prédio da Associação Cearense de Imprensa, pertinho da Praça do Ferreira, não sem antes ter vindo de sala alugada com seus próprios recursos.





A experiência busca integrar os amantes da leitura, trabalhadores, pesquisadores e quem mais quiser. Nas palavras oficiais do espaço,  

" Com a proposta de ser um lugar de liberdade da palavra, leitura pública e compartilhamento de ideias, Plebeu Gabinete de Leitura é formado pelo acervo que veio da coleção particular da historiadora e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Adelaide Gonçalves. 

Inaugurado em 1 de maio de 2012, o local foi idealizado como um espaço aberto aos trabalhadores do Centro da cidade ou que passam por ali no dia-a-dia de trabalho.

 O objetivo da biblioteca é fazer com que os trabalhadores, pesquisadores e militantes possam ter acesso a livros, jornais, revistas, com assuntos relacionados a temas como reforma agrária, movimento sindical, história do Ceará, memória de Fortaleza, imprensa operária, clássicos literários e filosóficos, entre outros."

Fomos visitar o Plebeu a convite do Sandro, que gentilmente já havia me levado para ver as novas instalações da faculdade de Gastronomia. Adelaide Gonçalves conheceu o Acre e a Biblioteca da Floresta, tendo sido a ela apresentada pelo próprio governador Binho Marques, na época. Segundo ela, emocionou-se muito com o espaço, emoção que pudemos devolver ao entrar no Plebeu. Lá, o tempo parece não querer passar. 

Bonequinhas feitas por artesãs do interior mostram várias Frida Kahlo coloridas e exuberantes, tudo a ver com a original e nos recepcionam logo na entrada. Cristaleiras antigas e cheias de bossa escondem tesouros a serem descobertos por quem se aventura na pesquisa. Uma delas contém inúmeras edições do Manifesto Comunista, em várias línguas e edições, amealhadas por Adelaide ao longo de viagens e visitas a escolas, livrarias, sebos e universidades no país e no mundo.


Algumas das lindas bonequinhas Frida Kahlo, feita por artesãs do interior


Nas paredes, cores fortes e personalíssimas reproduzem quadros de Frida, artesanatos variados, bordados, memórias e vivências muito particulares e generosamente expostas a dividir a vida, a arte e o prazer pelos livros e pelo conhecimento. Os estudantes, pesquisadores, trabalhadores e acadêmicos estão sempre por ali. Sente-se no ar a vibração de séculos de história. As lutas do Ceará, suas peculiaridades também circulam pelo local, elegantemente vestidas. Até mesmo o Demolidor, "Orgam da Liga contra os Frades" constituída pela Mocidade Independente lança suas letras anticlericalistas pelo espaço.


O jornal O Demolidor (aqui em 05 edições, com organização de Adelaide Gonçalves, Allyson Bruno e Victor Pereira

Com recursos do próprio bolso, Adelaide e mais dois organizadores fizeram uma edição primorosa dos primeiros cinco números desse jornal publicado em Fortaleza em 1908, libertário e anticlerical. Difícil não desejar levar para casa um pouco dessa memória afetiva, dessas cores, desse afeto. Numa das paredes, deparo-me com um desenho feito por Estrigas, crítico de arte, pintor  e ilustrador, artista plástico da mais alta qualidade, além de odontólogo no início de sua vida profissional. 


Foto tirada do quadro que Estrigas deu de presente para Adelaide, exposto no Plebeu

Estrigas e Nice Firmeza, sua esposa, também artista plástica, primeira mulher a integrar a Sociedade Cearense de Artes Plásticas, na década de 50, educadora, exímia bordadeira, formaram um casal de ouro das Artes Plásticas cearenses e dividiram a vida e arte por mais de cinquenta anos. Lembrei-me com pesar, uma vez que os dois já são falecidos, de uma reportagem sobre eles publicada há muitos anos no jornal O Povo. Lá, o sítio no Mondubim, transformado por eles em mini-museu, recebia artistas, escritores, intelectuais e pessoas simples. Uma Nice sorridente dividia com os leitores seu prazer de viver e entre suas inúmeras atividades, também fazia doces e bolos, entre outros pitéus de criação própria com as abundantes frutas do sítio.

Fiquei com muito vontade de visitá-los no dia em que li aquela reportagem. Mesmo sem conhecê-los, tive imensa vontade de conhecer aquele sítio encantado, onde se via, o amor transbordava e se espalhava pelos caminhos. Mas o trabalho, os meninos pequenos, a falta de tempo e a coragem me impediram. Na visita à Adelaide, eis que me vem ela com um pequeno presente, de imenso valor para mim: uma cópia de um trecho do livro "Nice pinta e borda...faz arte!", publicado pela Expressão Gráfica, em 2008, de autoria de Lúcia Lustosa Martins.

Presente precioso, pois reproduz várias das receitas de Nice, inclusive com suas brincalhonas e irreverentes observações. Procurei o livro, mas ainda não o achei. Certamente, com mais tempo, encontrarei outros livros sobre o casal. Nosso querido amigo comum, Fernando França, artista plástico que vive em Fortaleza, outro acreano de raro talento, pintou o casal em telas separadas, no seu livro Diálogos, um projeto maravilhoso que retratou vários artistas cearenses. O livro foi lançado em exposição do mesmo nome e impresso pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, numa edição primorosa (Veja mais em http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/pinceladas-cearenses-1.682697).

E para não dizer que esqueci do Carnaval, Fortaleza, a exemplo de outras cidades país afora, como a nossa também, cada vez mais investe no carnaval de blocos, com apoio público para segurança e infra-estrutura nos espaços, mas com foliões mais interessados em ouvir os maracatus, as marchinhas de antigamente, as lindas músicas locais, eternizadas por tantos compositores de primeira linha. Saímos pouco. Mas fomos à pracinha da Gentilândia, bairro histórico e antigo e nos deliciamos com o Sanatório Geral, com sua animada música. Público tranquilo, muitos professores e universitários, bancários, artistas, comunidade do Bairro, fizeram a diferença na hora de se divertir.



Mercado dos Pinhões em noite de bloco carnavalesco...

No outro dia, nos encantamos com os Maracatus na rua Domingos Olímpio. Não os vimos todos, mas que emoção! Cultura, arte e principalmente, a população local participando ativamente, com suas famílias e suas torcidas, lindo de ver. E no outro dia, para encerrar a folia, fomos ao Mercado dos Pinhões, revitalizado, um espaço todo em metal, artístico, que abriga feirinhas de orgânicos, chorinhos e sambas e acolheu um público jovem e outro nem tanto, muito interessado em ouvir o Luxo da Aldeia e todas as músicas produzidas apenas por artistas cearenses, algumas destas já de conhecimento nacional, gravadas por Ednardo e outros. Para fechar o dia, bem pertinho, na rua João Cordeiro, estava o bloco da Mocinha.

Senti-me no clube do Rio Branco e do Juventus, aos quatorze ou quinze anos, ouvindo as marchinhas de antigamente, lindamente cantadas por músicos locais, afinadíssimos. Podemos sim, ainda podemos, ser felizes. E para esse longo texto não passar em branco, reproduzo uma das receitinhas da Nice Firmeza (tal e qual na cópia que tenho), ainda não testada, publicada no livro citado acima, da Lúcia L. Martins. Aproveite!

Papinha de Anjo (Creme de coco verde, todos repetem)
(receita de Nice Firmeza)

Ingredientes

Para cada 3 cocos verdes (miolo)
9 colheres de sopa de açúcar
1/2 litro de leite de gado

Modo de fazer

Passa o coco, o açúcar e o leite no liquidificador, depois leva ao fogo, mexe até aparecer o fundo da panela. Conserva o creme na geladeira. O Estrigas mistura com outros doces. Esse creme eu fiz porque aqui eu tomava muita água de coco e era preciso aproveitar o miolo.

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Para saber mais:

Plebeu - vide em https://www.facebook.com/PlebeuGabinetedeLeitura, rua Floriano Peixoto, 735, 5. andar, sede da Associa,ão Cearense de Imprensa, Fortaleza. Horário de funcionamento: Seg. a sexta, de 08:00 às 17:00h  

ICA - Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará
(https://www.facebook.com/photo.php?fbid=852265824811606&set=a.617230371648487.1073741837.100000845893444&type=1&comment_id=852298741474981&offset=0&total_comments=15&notif_t=photo_comment)


Nice Firmeza http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/04/15/noticiasjornalvidaearte,3039048/a-partida-da-flor-nice-firmeza.shtml

Estrigas
http://g1.globo.com/ceara/noticia/2014/10/morre-o-artista-plastico-cearense-estrigas-aos-95-anos.html

Fernando França
https://www.google.com.br/search?q=livro+de+fernando+fran%C3%A7a+com+pintura+de+estrigas&biw=1280&bih=699&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=iC3qVOCHMcG1sAT2kYLQBg&ved=0CCUQsAQ

Para ouvir a loa da Nação Fortaleza deste ano e a Noite Azul, favor acessar a página do Marcos Afonso no facebook:

https://www.facebook.com/marcos.afonsoii/posts/750718838375851?comment_id=750818628365872&notif_t=mentions_comment


domingo, 1 de fevereiro de 2015

MÃOS DE MULHER

Biscoito de Maizena®(amido de milho) da minha mãe...


Cheguei ao Mercado apressada, com o horário já estourado. A missão,  dada pelos filhos,  já fora parcialmente cumprida desde o dia anterior: quibe (ou quebes ) de arroz e saltenhas fritas já repousavam no congelador, embalados em roupa prateada, engalanados para seguir viagem rumo à Terra do Sol.

Dos muitos petiscos preferidos que o tempo não daria oportunidade de levar,  esses e a farinha foram os escolhidos,  junto com o xarope de guaraná já na sacola.  Na mão, para não ter risco de quebrar, irão os biscoitinhos feitos pela avó, a serem comidos de conta-gotas. Fui correndo à banca do Mercado onde sempre compro a melhor farinha de Cruzeiro do Sul.

Apesar da pressa, encontrei um querido amigo, ocupado em adquirir alguns dos nossos melhores produtos para uma cesta a ser entregue a uma autoridade nacional em visita ao nosso Estado. Enquanto esperava,  sugeri a troca da rapadura já escolhida por ele, filha única ali abandonada e em não muito bela condição,  por um açúcar mascavo  claro, fresco e macio dentro do saco plástico que o acomodava.

Sugestão aceita,  começo a conversar com o proprietário,  senhor Adalberto. Sempre que ali vou, sou atendida pela dona Verônica,  a esposa. Pergunto e converso até mais do que compro, mas ela tem a maior paciência em identificar a procedência de cada produto. Na frente da banca, ficam três ou quatro enormes barris plásticos com a farinha de tapioca, as farinhas branca e a amarela colorida com açafrão, além da de coco, estrela maior. 

Jamais compro farinha sem provar. Sempre peço que ela seja pesada dos barris, pois apesar da ótima qualidade das que estão ensacadas, prefiro ao presentear, saber exatamente o sabor que estou ofertando para alguém querido. E aí,  ao provar da farinha de coco,  de tão crocante, comecei a falar pra ele que estava tão boa que eu tinha certeza que ele havia voltado para o antigo fornecedor.

Explico: apenas uma vez, ao comprar a farinha e provar, percebi que apesar de muito boa, não tinha o mesmo sabor e crocância das outras farinhas que eu sempre adquiria ali. Comentei com a dona Verônica,  que concordou e pesarosa, me informou ter tido um problema com o fornecedor de sempre e precisara adquirir de outro. Não levei a farinha nesse dia.

Hoje, ao voltar, comentei esse fato com o seu Adalberto. E ele, ao me contar a história,  disse que havia resgatado a parceria,  pois havia perdido vendas em função da excepcional qualidade desse produtor. Provei e pedi para ele embalar a farinha de coco. Enquanto conversávamos, ele deslocou alguns dos pesados sacos que decoram o local, que é bem pequeno, abriu um deles, olhou pra mim e disse:

" Quando eu vendo aqui uma farinha, fico feliz. Mas quando eu abro um saco com esse produto com tanta qualidade, parece que tudo faz sentido. A senhora não encontra essa farinha aqui em lugar nenhum. Apenas três produtores a fazem com essa qualidade.  O coco, plantado lá mesmo, é descascado à mão e lavado caprichosamente. Depois é bem ralado em pedaços minúsculos que no momento certo, vão para a farinha e quase se dissolvem. É tudo feito com tanto capricho e cuidado que emociona a gente. Essa farinha vem de um ramal lá de Cruzeiro do Sul, na mesma estrada da fábrica de biscoitos".

Fiquei escutando extasiada. Porque para quem ama o que faz e compreende a importância de manter a tradição e o sabor que nos orgulha e identifica, garantir a qualidade desse produto faz toda a diferença.  Não comprei apenas a farinha deliciosa. Comprei cultura, comprei o conhecimento de décadas e principalmente,  levo com a farinha o amor pelo produto bem - feito. 

Agradeci ele ter aberto o saco enorme de farinha para que eu levasse a melhor possível.  Ele me disse: " E a senhora sabe de uma coisa? Essa farinha é feita com uma pazinha desse tamanho, pequena. E sabia que a maior parte dela é feita por mulher?"


A farinha com coco, crocante, aromática e muito, muito saborosa...

Fiquei absorvendo a informação.  Longe de significar preconceito, tudo o que ele quis me dizer foi que além de todas as outras qualidades presentes, ali também estavam  delicadeza, capricho e envolvimento total. Por isso, para homenagear essas trabalhadoras tão especiais, trago a receita dos biscoitinhos feitos até hoje por minha mãe. Aos quase oitenta anos, dona Marisanta segue firme e forte. Farmacêutica, talvez a primeira no Acre, dirige, capina o quintal até hoje e apesar de não gostar de cozinhar, faz os quitutes mais deliciosos. Os biscoitinhos são disputados no tapa e quase escondidos pelo neto mais velho, que os come devagar. Faça você também, é fácil e com um café fresco, são imbatíveis.

Biscoitinhos de Maizena ® da dona Marisanta

Ingredientes

100 g de manteiga com sal
250 de amido de milho (Maizena)
06 colheres de sopa rasas de açúcar (ou um pouco menos, se desejar)
01 ovo inteiro

Modo de fazer

Misture todos os ingredientes em uma vasilha e amasse com a mão, até ficar bem ligado. Numa superfície limpa, retire porções e enrole como cordões, cortando com a faca em pequenos pedaços, a gosto e passando um garfo em cima para fazer as marquinhas e achatar um pouco o biscoito. Coloque em forno quente, em assadeira untada e polvilhada com farinha de trigo, até assar.

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Banca do seu Adalberto e dona Verônica - Mercado Elias Mansour, Rio Branco, Acre,
parte interna